PERSONALISMO CRISTÃO COMO POSSÍVEL FUNDAMENTAÇÃO PARA A BIOÉTICA

November 23rd, 2007

De todas as concepções humanas a mais decepcionante é aquela herdada do empirismo materialista cujo maior efeito é a promoção de um abastardamento da espiritualidade humana em prol da sua individualidade material.
Desde Hobbes, Locke, Hume, em seguida, Darwin, Spencer, Marx, Freud, entre muitos outros que poderíamos mencionar; é que gradativamente verificou-se que a inteligência e a vontade humana, de modo muito variado, restringiu-se ao campo do material-sensível perdendo o seu senso real. Afinal, em nenhum outro momento da história, como o nosso, ouviu-se tantos clamores exigindo a condição de estrita animalidade para o homem.
Por conseguinte, é com um certo estranhamento e espírito inquietante que nos questionamos: Será que não passamos de macacos sem pêlos impelidos pela libido e bem sucedidos na história?… Será que a inteligência e a vontade devem permanecer no nível da sensibilidade irracional?… Será que devemos nos figurar reduzidos apenas a um complexo físico-químico ou a um material orgânico bem desenvolvido no espaço e no tempo?… Como é possível sustentarmos a dignidade da pessoa humana, sua espiritualidade, inviolabilidade, integridade e intimidade diante do exagero da materialidade individual que se faz tão presente?…
Certamente o personalismo cristão vai ao encontro de tais questionamentos e inquietações suscitando a harmonia entre a individualidade material e a personalidade espiritual. Como também, fornece uma visão do homem que transcende as determinações do mundo físico, promovendo fundamentos para a emergência de uma “ética da vida”, que é o caso da bioética.

Acerca do Indivíduo e da Pessoa

No personalismo cristão considera-se o ser humano metido em dois pólos: um pólo material que explicita sua individualidade, e outro pólo espiritual que explicita sua personalidade. Eis-nos diante de dois aspectos reais do ser humano que estão correlacionados e devem ser bem compreendidos.
A individualidade fundamenta-se sob condições materiais, isto é, em que haja determinada indeterminação determinável; afinal, é necessário considerar que a matéria “… exige para ocupar no espaço uma posição distinta de uma outra posição…”, “… pois é uma espécie de não ser, uma simples potência de receptividade e de mutabilidade substancial, uma avidez para o ser”.[1]
E tomado apenas pela sua individualidade, o homem tende a dispersar-se no múltiplo, tende a desestruturar-se no espaço e no tempo, pois “a matéria tende de si mesma para se decompor, como o espaço para se dividir” [2]; em outras palavras, como indivíduo, o homem permanece submetido ao determinismo do mundo físico, pois, em tal condição, é parte de uma totalidade e jamais é uma totalidade única; afinal, o indivíduo sempre se compõe e decompõe na totalidade física, como por exemplo, o fruto que se compõe como parte da árvore e ao separar-se dela, se decompõe e torna-se parte de outra coisa.
Porém, enquanto material que é, o indivíduo exige e ostenta uma energia metafísica que sirva de sustentáculo da sua existência, o que, no caso do homem, é a própria alma espiritual, ato primeiro de vida subsistente; ou seja, aquilo que resguarda sua unidade substancial, a sua estrutura espaço-temporal, a sua totalidade única; e que determina ou especifica sua materialidade individuante.
Ao nos depararmos com a alma espiritual é que reconhecemos aquele princípio de unidade criadora, de independência e liberdade; ou seja, que reconhecemos a pessoa humana que somos. Com efeito, em contrário ao pensamento de muitos, enquanto pessoas humanas, possuímos integridade, já que somos uma totalidade única irredutível a qualquer outra totalidade; significa que: “… as pessoas não são intercambiáveis, não são indivíduos numéricos: não são como os frangos. “Tenho três galinhas” não tem o mesmo conteúdo que “tenho três filhos”, ainda que coincidam quantitativamente” [3].
A personalidade torna manifesto o centro metafísico do homem, a sua espiritualidade, aquela fonte última da dignidade que expressa sua inviolabilidade na existência. E é pelo ato de intensividade variável, em que o enriquecimento da assimilação exterior cresce na mesma medida em que cresce a vida imanente; como também, na tendência a realizar tal crescimento que identificamos o dinamismo próprio da pessoa humana; ou seja, que identificamos aquela similitude divina em nós, que é a inteligência e a vontade.
A inteligência e a vontade são as faculdades imateriais e espirituais intrínsecas à personalidade humana, pois são subsistentes e garantem nossa superioridade diante de outros seres vivos. Como também, são faculdades que pela condição de imaterialidade são imensuráveis organicamente, o que conseqüentemente torna o homem, enquanto pessoa, livre das diversas determinações do mundo físico, caracterizando a sua própria intimidade. “A intimidade indica um dentro que só a própria pessoa conhece” [4], e certamente tal intimidade, esse abrir-se para dentro, legitima sua inviolabilidade espiritual; afinal, ela indica o que somos interiormente, trata-se de nosso patrimônio pessoal que somente é revelado ou comunicado a outros se quisermos.
Importa ressaltar que a individualidade e a personalidade não existem separadas no homem, pois são dois pólos complementares, e constituem a condição necessária da nossa existência no mundo físico.
Entretanto, é em ordem à personalidade que a individualidade se torna melhor. “Porque sem dúvida, cada um dos meus atos é ato de mim indivíduo e ato de mim pessoa; mas na medida em que é livre e me compromete inteiramente, cada um dos meus atos é arrastado num movimento que vai para o centro supremo para que tende a personalidade, ou num movimento que vai para a dispersão onde, entregue a si mesma, a individualidade material exige recair” [5].
Assim, como pessoas, sempre somos livres para nos entregarmos aos movimentos da própria individualidade material, a tal ponto que nos representamos ou nos tornamos camelos de si próprios ou macacos sem pêlos impelidos pela libido e bem sucedidos na história; e até, mesmo que isso seja contraditório, negamos a inteligência e a vontade reduzindo-as à sensibilidade irracional. Em outros termos, o homem só pode negar a vida do espírito, porque é espiritual, porque é pessoa humana. Eis a sua condição de liberdade!…

A Bioética e o Personalismo Cristão.

Na maioria das vezes considera-se a bioética apenas como uma “ética aplicada” num sentido absolutamente pragmático, isto é, como se houvesse o primado da ação sobre a inteligência, em que a inteligência fosse incapaz de conhecer o real; sendo o real apenas um bom resultado.
Na verdade, perante as emergências atuais provenientes do progresso técnico-cientifico a significação real da bioética possui um alcance muito maior, pois é “ética da vida”; é o que podemos verificar nas palavras de Leo Pessini: “… ela vem ganhando uma visibilidade, uma urgência toda especial na nossa sociedade contemporânea, justamente porque nós temos fatos, acontecimentos e progressos extraordinários no âmbito da ciência, na nossa ciência da vida e da saúde que estão querendo alterar tudo no que se refere à vida na face da terra e do ser humano em particular; daí a importância de que as novas gerações, a juventude universitária de hoje esteja atenta, justamente às questões éticas implicadas nesse progresso técnico-cientifico” [6].
Portanto, enquanto “ética da vida”, a bioética possibilita e favorece todo um resgate da ética cósmico-realista da tradição clássica tão presente no personalismo cristão, a qual é metafísica e “fisicamente” fundada. Pois nela verifica-se todo um interesse em conhecer e direcionar-se para a situação do homem no mundo e as suas realidades extramentais, sempre considerando o progresso técnico-cientifico.
E ao apossar-se da bioética como “ética da vida” também nos afastamos daquela ética acósmico-idealista regida por meio de postulados ditados por uma pseudo-razão onde é predominante certa condição dedutivo-normativo. Afinal, todo conhecimento originado de tal progresso deve ser bem sustentado eticamente. Pois, “o que vai definir o uso desse conhecimento, dessa energia para o bem ou para o mal é uma opção ética, por isso que a ética tem que estar estritamente ligada com a questão cientifica e técnica” [7].
Não há dúvidas que a prioridade da bioética está em preservar a integridade e dignidade da pessoa humana no mundo, isto é, diante de tantos avanços científicos e técnicos. E nada mais adequado que explicitarmos e reconhecermo-nos mais como pessoas do que como indivíduos, ou seja, em submetermos nossa individualidade material à personalidade espiritual.
Certamente quando nos identificamos como pessoas passamos a respeitar a pessoa do outro, nos tornamos mais dignos da verdadeira condição humana; entretanto, ao nos identificarmos apenas como indivíduos passamos a oprimir o outro e ignoramos a nossa própria dignidade, e mesmo enquanto humanos preferimos nos representar ou agir como animais.
Sendo assim, é elevando a condição de pessoa humana que o personalismo cristão pode respaldar ou fundamentar a bioética que perpassa todos os âmbitos da vida.
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Referência bibliográfica

·MARITAIN, Jacques. A pessoa e o bem comum. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1962.
·STORK, Y. Ricardo, ECHEVARRÍA, A. Javier. Fundamentos de Antropologia. São Paulo: Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2005.

Referência de consultas

·Entrevista concedida no “I Congresso de Bioética” realizado na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2007.

[1] Cf. MARITAIN, Jacques. A pessoa e o bem comum. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1962. p. 37.
[2] Cf. Idem. Ibidem. p. 39.
[3] Cf. STORK, Y. Ricardo, ECHEVARRÍA, A. Javier. Fundamentos de Antropologia. São Paulo: Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2005. p. 87.
[4] Cf. Idem. Ibidem. p 83.
[5] Cf. MARITAIN, Jacques. A pessoa e o bem comum. Lisboa: Livraria Moraes Editora, 1962. p. 45.
[6] Entrevista concedida no “I Congresso de Bioética” realizado na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2007.
[7] Ibidem.
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Professor de Filosofia: Adriano de Araujo

O REALISMO DO CONHECIMENTO HUMANO NA GNOSIOLOGIA TOMISTA (CAPÍTULO I – SANTO TOMÁS DE AQUINO E O TOMISMO)

March 11th, 2007

 

1. Santo Tomás de Aquino: Vida e Obra

1.1 Breve noção da pessoa: Santo Tomás de Aquino (sua vida) [1]
Santo Tomás de Aquino nasceu no reino de Nápoles em Roccasecca[2], por volta do final de 1224 (ou início de 1225), no século XIII.
Em 1230 aos cinco anos de idade foi entregue como oblato ao abade Sinibaldo (seu tio), abade do Mosteiro de Monte Cassino. Ali, recebeu rudimentos de letras e foi iniciado na vida religiosa beneditina, cujos traços podem ser encontrados em suas obras.
Na condição de caçula, Santo Tomás estava submetido a um costume da época, o de ser oferecido à Igreja; entretanto, Landolfo (seu pai) provavelmente manifestava a intenção de vê-lo como um futuro abade (o que era uma condição de muito prestígio e poder, isto é, já que se tratava de um rico benefício eclesiástico).
Em 1239, Santo Tomás foi enviado a Nápoles para estudar as artes liberais (trivium: gramática, dialética, retórica; e quadrivium: aritmética, geometria, astronomia, música) permanecendo até 1244.
Santo Tomás veste o hábito dos dominicanos em 1244, contra a vontade da família, iniciando o noviciado e os estudos de Filosofia e Teologia. Entre 1244 e 1245, é submetido à detenção forçada por sua família, pois Teodora (sua mãe) temerosa com as atitudes de Santo Tomás, ordena a sua captura e reclusão no Castelo de Roccasecca[3]; contudo, em 1245 ele recobra a liberdade e segue para Paris. Em Paris manteve os seus estudos com Alberto Magno[4], tornando-se seu discípulo eminente.
Em 1248 acompanha Alberto Magno para Colônia, onde se cria um studium generale; já em 1252 retornando à Paris torna-se bacharel sentenciário, ensinando Teologia e redigindo várias obras[5] (Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, Do ente e essência, Princípios da Natureza etc).
Em 1256 Santo Tomás recebe o grau de mestre em Teologia acompanhado de seu amigo franciscano S. Boaventura, por iniciativa pessoal do Papa Alexandre IV.
De 1256 até 1259 é mestre regente em Paris, e neste período surgem muitas disputas com Guilherme de Santo Amor. Entretanto, no outono de 1259 retorna à Itália, onde é nomeado, pelo Papa, professor de Teologia na escola anexa à corte pontifícia.
Ainda por volta de 1259 em Roma, Santo Tomás conheceu o helenista Guilherme de Moerbeker, que traduziu direto do grego, a seu pedido, as principais obras de Aristóteles, nas quais pode trabalhar.
No outono de 1269 volta a Paris no intento de defender as Ordens Mendicantes contra seus impugnadores: o averroísmo, e as teorias agostinianas dos teólogos franciscanos. Também no decorrer de 1269 a 1273 defendeu Aristóteles das acusações de paganismo empregada pelos agostinianos
Em 1274 foi convidado pelo Papa Gregório X para tomar parte do Concílio Ecumênico de Lyon; porém, durante a viajem é arrebatado por uma doença grave, e no dia 7 de março daquele ano, morre na abadia cisterciense de Fossanova.
No ano de 1323, Santo Tomás de Aquino é canonizado em Avignon pelo Papa João XXII; posteriormente foi-lhe concedido o título de Doctor Angelicus (séculos XV – XVI), sendo que no século XIII já era consagrado como Doctor Communis. Em 1567 o Papa Pio V proclamou-o Doctor Ecclesiae; e em 1880 o Papa Leão XIII conferiu-lhe o titulo de Patrono das escolas Católicas.

1.2 Alguns elementos fundamentais na realização da sua Obra (a realização da Síntese Perfeita)
Santo Tomás de Aquino apresenta uma obra extensa e incomum; incomum pelo seu caráter perennis[6], como também, pela profundidade nas abordagens, seja em Filosofia ou Teologia. De modo geral, sua obra pode ser dividida em quatro grupos: Comentários, Sumas, Questões e Opúsculos. Toda ela, certamente, representa o ápice da escolástica numa síntese superior do pensamento clássico e cristão; ou seja, nela constata-se a plena consciência dos poderes da razão, o que confirma finalmente ao pensamento Cristão uma Filosofia Realista.
Seguindo a constatação de Umberto Padovani[7] é notável ver o quanto o pensamento patrístico e o escolástico (sempre atentando ao pensamento patrístico que chegou ao apogeu com Santo Agostinho repleto de concepções neoplatônicas, e de um rico patrimônio da revelação judaico-cristã); como também, o pensamento helênico na sistematização imponente de Aristóteles, convergiram para Santo Tomás de Aquino, tornando-o eminente em suas elucubrações.
Santo Tomás de Aquino tornou-se, não apenas o receptor dos pensamentos e implicações de sua e outras épocas, mas tornou-se aquele que explicitou em sua obra as soluções ou conclusões em sínteses correspondentes de modo mais apurado, isto é, do ponto de vista do real.
Afinal, é importante ressaltar que em conseqüência do contato com o pensamento de Aristóteles, isto é, por meio das primeiras traduções[8], os Filósofos Cristãos do séc. XIII se defrontaram com um problema considerado fundamental; problema já existente entre os filósofos árabes e judeus; pois se tratava da superação das antinomias, entre aristotelismo e platonismo.
Do ponto de vista metafísico e gnosiológico[9], a antinomia consistia em que, para o aristotelismo, as idéias ou essências estão nas próprias coisas como formas atuais, daí a realidade substancial é apresentada como um composto de forma e matéria (emprego do hilemórfismo), e só é conhecida mediante abstração originada pelo intelecto agente; já para o platonismo, as idéias ou essências estão fora das coisas, fora do espaço e do tempo, pois são realidades que transcendem o mundo transitório, e só podem ser conhecidas mediante participação da alma. Com efeito, como já foi citado, Santo Agostinho que recebeu muita influência das concepções neoplatônicas (principalmente da obra Enéadas de Plotino), também concebia as idéias fora das coisas, mas porque estavam na inteligência divina, as quais eram conhecidas por meio da iluminação divina no homem. Logo, vejamos algumas palavras de Umberto Padovani acerca da iluminação na gnosiologia platônico-agostiniana:

“… como para a visão sensível além do olho e da coisa, é necessária a luz física, do mesmo modo, para o conhecimento intelectual, seria necessária uma luz espiritual. Esta vem de Deus, é a Verdade de Deus, o Verbo de Deus, para o qual são transferidas as idéias platônicas. No Verbo de Deus existem as verdades eternas, as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. Como se vê, é a transformação do inatismo, da reminiscência platônica, em sentido teísta e cristão. Permanece, porém, a característica fundamental, que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista, pois, segundo a gnosiologia platônico-agostiniana, não bastam, para que se realize o conhecimento intelectual humano, as forças naturais do espírito, mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus” [10].

Sendo assim, diante das concepções platônico-agostinianas já estabelecidas entre os pensadores cristãos, Santo Tomás encontrava grandes dificuldades em explicitar um aristotelismo mais coerente; afinal, havia uma enorme resistência ao aristotelismo, já que era eivado de erros devido às péssimas traduções e interpretações averroístas, as quais negavam a imortalidade da alma, a providência, a criação, o livre-arbítrio etc[11]; impossibilitando, com isso, qualquer conformidade com o pensamento cristão.
Entretanto, foi a partir da adequada aproximação com as obras de Aristóteles, ou seja, aproximação por meio das traduções diretas do grego encomendadas ao helenista Guilherme de Moerbeker[12], que Santo Tomás pode intensificar seus comentários acerca do aristotelismo (redigindo os comentários à Física, à Metafísica, à Ética a Nicômaco e à Política), tornando-se um profundo conhecedor do pensamento real do estagirita.
Enquanto profundo conhecedor do pensamento de Aristóteles, Santo Tomás podia evitar as deformações instituídas no aristotelismo pelos árabes; como também, evitar certos descuidos originados por alguns tradutores, e até denunciar obras tidas falsamente como de Aristóteles [13].
Com efeito, foi a partir de um pensamento aristotélico depurado, e defronte da Tradição Cristã, da filosofia platônico-agostiniana, em particular; que Santo Tomás enriqueceu e aperfeiçoou mais ainda seu pensamento[14]. Afinal, tornou-se possível conciliar, por meio de intuição analógica, aquilo que parecia um verdadeiro abismo entre concepções aristotélicas de uma parte e platônico-agostiniana de outra; pois Santo Tomás considerou que as idéias ou essências estão nas próprias coisas, como formas atuais, como diziam os aristotélicos; e também, fora das coisas, na inteligência divina, como diziam os platônico-agostinianos.
É importante enfatizar que, conforme Santo Tomás, Deus in-formou, deu forma às coisas no ato mesmo de criar, deu o ser (ato de existir) propriamente. Ora, a forma da obra não existe no intelecto do artesão e também na própria obra?… Do mesmo modo, a forma exemplar estava em Deus (Criador), para estar na criatura. E é a partir de tal intuição analógica que constatamos a excelência da intelectualidade aristotélica a serviço do Cristo, ou seja, da Tradição Cristã propriamente.
E é a partir do enriquecimento e aperfeiçoamento de tal pensamento (aristotélico), que Santo Tomás realizou em toda sua obra uma síntese perfeita, bem ordenada e harmoniosa entre o aristotelismo e a Tradição platônica[15]; ou seja, tornando o que poderia ser considerada uma disjunção, naquilo que consideramos uma verdadeira conjunção no pensamento filosófico e teológico.
E já que a obra de Santo Tomás explicita um aperfeiçoamento envolvido com a Tradição Cristã, poder-se-ia eventualmente supor que Santo Tomás, na sua obra, teria aristotelizado o cristianismo; mas na realidade cristianizou o pensamento de Aristóteles. Afinal, o cristianismo era considerado por Santo Tomás, em toda sua abrangência, como realidade inequívoca, ou seja, em toda sua explicitação revelada e determinada; portanto, toda sua obra é definida pela conveniência e colaboração entre Fé e Razão.
Conseqüentemente, sua filosofia é eivada de um realismo metafísico submetido à Revelação Cristã, ou como diria Étienne Gilson, eivada da “metafísica do Êxodo” [16]. Afinal, vale lembrar, que conforme o cristianismo a realidade constitui-se como criada ex nihilo, a partir do nada por Deus; afinal, como vimos, é Ele que é (o Criador) que faz existir, que dá ser ao ente criado. Com efeito, em Santo Tomás, é a partir da realidade determinada, do mundo criado por Deus que se pode filosofar. E de acordo com Étienne Gilson:

“Trata-se de um mundo em que o ser é o ato por excelência, o ato de todos os atos, é também um mundo em que, para cada coisa, a existência é a energia original de onde flui tudo o que merece o nome de ente. Um tal mundo existencial não pode ser explicado por nenhuma outra coisa senão por um Deus supremamente existencial” [17].

E é a partir de tal realismo metafísico, que se torna possível compreender toda obra de Santo Tomás; pois o real pela sua inteligibilidade é o núcleo da sua filosofia, com efeito, a sua síntese bem ordena só torna-se procedente considerando o ser no ente criado (aquele ato de existir, o objeto da metafísica propriamente)[18]. E como podemos identificar nas palavras de Fernando Arruda Campos:

“… é a partir deste núcleo que se estruturam as teses fundamentais que integram a vasta síntese filosófica de Santo Tomás: as propriedades transcendentais do ser; a divisão do ser em substancia e acidente; o conceito de suposto, hipóstase e pessoa (hipóstase racional), a teoria da causalidade, na ontologia; a composição de matéria e forma, quais princípios intrínsecos de todo ser corpóreo; hierarquia das formas substanciais, em filosofia natural; a teoria da alma espiritual e, conseqüentemente imortal, qual forma substancial do corpo; a colaboração de conhecimento sensível e da inteligência humana, na constituição do conhecimento, assim como do apetite sensível e da vontade na explicação da ação humana; a doutrina da liberdade, qual características dos seres dotados de razão; a colaboração da inteligência e da vontade na constituição do ato livre, no plano da antropologia e da psicologia racional; enfim, a Realidade divina vista qual fim último do homem, em cuja posse encontra ele sua perfeita felicidade; a lei moral, entendida qual participação da lei eterna de Deus, na criatura racional e a teoria das virtudes, vistas quais meios para obtenção do fim último do homem, que são os princípios básicos da moral tomista [19]”.

2. O Tomismo[20]

2.1. Da devoção empenhada no Tomismo
Decerto muitos se questionam sobre a devoção particular empenhada a qualquer Santo, como se houvesse diminuição do amor na única devoção que é devida a Deus (razão de ser de todas as coisas). Entretanto, a devoção particular é um ato de dedicar-se a alguém conforme suas obras, dedicação que resulta da admiração, da estima ou amizade estabelecida. E a amizade é uma virtude agradabilíssima, que de modo algum, diminuiria o amor com que se ama a Deus.
Para um Cristão é sempre confortante e esplendoroso poder receber a doutrina do Cristo, e também, receber os ensinamentos filosóficos que estejam em conformidade com tal doutrina. Afinal, é justamente o que ocorre quando por meio da luminosidade originada na sólida amizade dedicada a um Santo Tomás, encontramos no núcleo de sua obra as fontes de um Tomismo sempre Vivo.

2.2. Importância da intuição analógica como meio de construção filosófica no Tomismo
Afinal, como já foi dito, o real pela sua inteligibilidade é o núcleo da filosofia de Santo Tomás, daí torna-se manifesto sua vivacidade que origina a verdadeira expressão do Tomismo. E em tal expressão aquilo que incita maior devoção à genialidade do Santo, indubitavelmente, é o emprego daquela:

“… intuição central de analogia como instrumento verdadeiramente vital e universal de pesquisa e de verdade”; intuição em que “… pode salvar na catolicidade uma doutrina perfeitamente livre e pura todas as verdades, sem desprezar nenhuma, pelas quais se esforçava o pensamento pagão em meio às suas trevas e aos sistemas dos filósofos em seus clamores discordantes” [21].

Assim sendo, é a partir da intuição analógica, na qual Santo Tomás explicitou as soluções ou conclusões em sínteses correspondentes de modo mais apurado (a síntese perfeita), que seus devotos (os tomistas), procuram desenvolver ou aprofundar a Filosofia, isto é, diante da diversidade de verdades ou realidades particulares apresentadas por muitos filósofos. Eis o motivo pelo qual na Encíclica Aeterni Patris, de Leão XIII (1879), enfatizou-se o Tomismo, não para substituir as diversas filosofias existentes, mas para enriquece-las e aperfeiçoa-las[22] ; daí a expressão de sua perenidade.
Em tal modo de intuição analógica a realidade da existência é preservada naquilo que é essencial mesmo que existam modificações e aperfeiçoamentos no conhecimento a partir do real; com efeito, não há um progresso que ocorra por meio de incessantes substituições filosóficas, em que as realidades particulares se sobreponham de modo incessante, ou seja, onde haja por sucessão múltiplos aspectos da razão ou perspectivas ideais, de formas de considerar o que já foi tratado. Significa que quando se considera o real, conseqüentemente considera-se aquele aprofundamento, aquele penetrar sempre no mesmo; significa que podemos sempre ver e rever as mesmas realidades e sempre haverá uma nova descoberta, porém, uma nova visão no mesmo, o qual torna explícita a própria existência extramental na sua atualidade, a própria realidade criada; daí o valor analógico e transcendental.
Com efeito, quando falamos de realidade, sempre damos ao termo um sentido entitativo; já que consideramos o ente enquanto é ser determinado para o real. Assim, importa ressaltar que o ser no ente criado (aquele princípio primeiro de inteligibilidade) não pode ser equívoco, isto é, não há um ser que é um conceito que designa objetos totalmente diversos uns dos outros, onde a cada momento o ser é outro, nunca sendo nada necessariamente. E também não é unívoco, onde o ser é um conceito que designa sempre um mesmo objeto, sendo o real um mesmo imutável. Mas o ser é um análogo, é um conceito que designa sempre o mesmo em outros; daí, a identidade na diversidade; pois é o mesmo naquilo que não pode não ser, e se diz de muitas maneiras. É o mesmo enquanto é ato, pois é “atualidade de toda forma ou natureza” [23] que é ou venha a ser.

2.3. O Tomismo Vivo
Portanto, constatamos que o Tomismo não é somente algo histórico; pois mesmo que possamos estuda-lo historicamente, não se trata apenas de um sistema (syn = com, junto a; hístemi = pôr, colocar) filosófico e teológico que tenha permanecido no passado; afinal, pelo seu cunho vivo e real “ele contém uma substância que domina o tempo” [24], e é pela sua força de síntese transcendente e analógica que ele possui um alcance universal. Afinal, por transcendente, no tomismo, pretende-se enfatizar e designar “aquilo que ultrapassa todas as categorias do ser e se aplica a tudo o que é ou pode ser, de qualquer forma que seja” [25].
Com efeito, tanto na ordem especulativa, como na ordem prática o Tomismo responde aos problemas modernos e contemporâneos. E certamente foi o que o filosofo Jacques Maritain procurou elucidar, vejamos suas palavras:

“… o que esperamos dele é, na ordem especulativa, a salvação atual dos valores da inteligência; na ordem prática, a salvação atual (na medida que isto depende de uma filosofia) dos valores humanos. Resumindo, é com um Tomismo Vivo e não com um tomismo arqueológico que estamos lidando. Nosso dever é tomar consciência da realidade e das exigências de tal filosofia”.
“É preciso que defendamos a sabedoria tradicional e a continuidade da filosofia perennis contra os preconceitos do individualismo moderno, já que este gosta, estima e procura o novo pelo novo e só se interessa por uma doutrina na estreita medida em que ela representa uma criação, a criação de uma nova concepção de mundo”.
“É preciso que mostremos que esta sabedoria é sempre jovem, inventiva e traz em si uma necessidade profunda, consubstancial, de engrandecer-se e renovar-se – isto contra os preconceitos daqueles que gostavam de fixa-la em dado estado do seu desenvolvimento e desconhecem sua natureza essencialmente progressiva”
[26].

3. Primeiro Epílogo

Como a proposta de nosso estudo refere-se à explicitação do realismo do conhecimento humano na gnosiologia tomista, consideramos adequado, neste primeiro capítulo, elucidar algumas noções acerca de Santo Tomás e sua obra, como também, acerca do Tomismo na sua perenidade; com efeito, esperamos tornar acessível o exame e apreciação do nosso estudo.
No estudo dos elementos fundamentais na realização da obra de Santo Tomás, foi possível identificar: a solução dada às antinomias existentes entre aristotelismo e platonismo e o aperfeiçoamento da gnosiologia platônico-agostiniano, isto é, a partir da noção de criação como fundamentação do ser no ente criado. Também identificamos, que o cristianismo é tido como realidade inequívoca, o que justifica a conformidade entre razão e fé. E por último constatamos um realismo metafísico como núcleo central desta filosofia.
Conseqüentemente, tratamos da devoção empenhada em um tomismo sempre vivo, onde foi possível identificar: que a devoção é a dedicação ao modo filosófico e teológico estabelecido por Santo Tomás; que a intuição analógica é capital como meio de construção filosófica, cuja finalidade é o enriquecimento e aperfeiçoamento, sempre a partir de uma mesma realidade entre as diversidades filosóficas; e por fim, que a maior ênfase reside na força de síntese transcendental e analógica, a qual explicita um tomismo sempre vivo. Portanto, diante de tais esclarecimentos, ainda que rudimentares, passaremos ao estudo dos modos e ordem do conhecimento humano a partir da realidade criada.

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Notas:

[1] Os dados biográficos e cronológicos de Santo Tomás de Aquino foram baseados em: TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino: sua pessoa e sua obra. São Paulo: Editora Loyola 2004.
[2] Cf. TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino: sua pessoa e sua obra. São Paulo: Editora Loyola, 2004. p.2: “Quanto ao lugar de nascimento de Santo Tomás, se outra hora suscitou algumas dificuldades – diversas localidades disputando tal honra – hoje os historiadores concordam em se referir ao Castelo familiar de Roccasecca, na Itália Meridional”.
[3] Cf. Idem. Ibidem. pp.10 -12: “O ingresso de Tomás nos pregadores comprometia definitivamente os planos de seus pais no que dizia respeito a seu futuro abadiado em Monte Cassino. Se ele chegou a pensar que seus pais se renderiam facilmente diante do fato, não contava com sua obstinação, em especial com a de sua mãe (Teodora)”.
[4] Conhecido como Doctor Universalis da Igreja; sua obra, segundo Étienne Gilson (renomado filósofo tomista), “teria sido uma espécie de esboço do Tomismo”. Cf. GILSON, Étienne. História da Filosofia Cristã. Petrópolis: Editora Vozes, 2004. p.395.
[5] Cf. TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino: sua pessoa e sua obra. São Paulo: Editora Loyola, 2004. p.47: “… tratava-se de sua segunda etapa em direção ao grau de mestre em Teologia. Segundo um paralelo freqüentemente evocado, os comentários às Sentenças eram como a obra-prima que o aprendiz devia apresentar para tornar-se mestre-artesão. Depois disso, Tomás só precisaria percorrer a terceira e última etapa, seu estágio de bacharel (baccalarius formatus), cuja principal tarefa seria ajudar seu mestre nas disputas”.
[6] Não é por acaso que se considera a filosofia de Santo Tomás como “filosofia perennis” ou “filosofia existencial” por excelência; pois seu caráter é contínuo e duradouro já que lida sempre com a mesma realidade, aquilo que não pode não ser, o Ser.
[7] Cf. PADOVANI, Humberto. História da Filosofia. São Paulo: Editora Melhoramentos, 1970. pp.232-233.
[8] Cf. CAMPOS, Fernando Arruda. Tomismo Hoje. São Paulo: Editora Loyola, 1989. p.16. Nota 4: “As obras de Aristóteles foram vertidas do árabe para o latim. Já no final do séc. XII, havia um colégio de tradutores, em Toledo, constituído por João de Espanha, Geraldo de Cremona e Domingos Gundisalvi. Um segundo núcleo de tradutores estabeleceu-se, no começo do séc. XIII, na corte do rei Frederico II da Sicília. Dele Faziam parte: Miguel Scot, Herman, o Alemão, e Bartolomeu de Messina”.
[9] O termo “gnosiologia” é designado como sinônimo de “teoria do conhecimento”; pois considera-se a denominação mais conveniente para enquadrar o conjunto de questões relativas à posse do ser pelo conhecimento. Para certificação de tal emprego Cf. MATTOS, Carlos Lopes de. Vocabulário Filosófico. São Paulo: Editora Leia, 1957. p. 183.
[10] Cf. PADOVANI, Humberto. História da Filosofia. São Paulo: Editora Melhoramentos, 1970. pp.210-211.
[11] Cf. BARROS, Manuel Correa de, Lições de Filosofia Tomista. Porto: Ed. Livraria Figueirinhas, 1945. p.30.
[12] Cf. TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino: sua pessoa e sua obra. São Paulo: Editora Loyola, 2004. p.262. Nota 2: “… até a tradução de Moerbeker, fazia-se referência à Metafísica segundo a tradução de Miguel Scot, que omitiu o livro Kappa, daí designava-se o livro Lambda por livro XI. Guilherme de Moerbeker será o primeiro a traduzir o livro Kappa, que em sua tradução será designado por livro XI, enquanto o livro Lambda será tido por livro XII. Esse critério permitiu dividir a obra de Santo Tomás em duas séries, uma que data de antes de Moerbeker… e outra após Moerbeker…”.
[13] Cf. CAMPOS, Fernando Arruda. Tomismo Hoje. São Paulo: Editora Loyola, 1989. p.17: “Foi este deverás o caso específico do Líber de Causis, transcrição da Elementatio Theologiae, de Proclus”.
[14] Cf. MARITAIN, Jacques. Introdução Geral à Filosofia.(Elementos de Filosofia I). Rio de Janeiro: Editora Agir, 1977. p.65: “Santo Tomás, não só transportou para o domínio do pensamento cristão a filosofia de Aristóteles na sua integridade, para fazer dela o instrumento de uma síntese teológica incomparável, como também, e ao mesmo tempo superelevou e, por assim dizer, transfigurou essa filosofia”. “Afinal, entre Aristóteles visto em Aristóteles e Aristóteles visto em Santo Tomás de Aquino, há a mesma diferença que uma cidade avistada através do clarão de tochas conduzidas pelos homens e a mesma cidade vista aos raios do sol matinal”.
[15] Cf. Idem. Ibidem.Nota. p.64: “Para que se realizasse esta obra, era preciso também que o pensamento Cristão já se encontrasse poderosamente constituído na ordem filosófica e teológica; graças aos Padres e à escolástica anterior a Santo Tomás. A obra de Alberto Magno e de Santo Tomás consistiu não em mudar, mas pelo contrário perfazer a filosofia Cristã, dando-lhe a forma da idade perfeita”.
[16] Cf. GILSON, Étienne. O Espírito da Filosofia Medieval. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006. p.126: “… vemos plenamente o pensamento cristão tomar nítida consciência dos seus princípios metafísicos e, superando o plano do helenismo, elaborar em sua forma definitiva o que poderíamos chamar de metafísica do Êxodo. Ou ainda, Cf. Idem. Deus e a Filosofia. Lisboa/ Portugal: Edições 70, 2003. p.54: “… a explicação de Aristóteles por Santo Tomás de Aquino poderia talvez ser mais rigorosamente denominada a sua metamorfose à luz da revelação Cristã. O pensamento que se pensa em Aristóteles tornou-se obviamente um elemento essencial da Teologia Natural de Santo Tomás de Aquino, mas sem primeiro sofrer a transformação metafísica que o converteu no Qui est ou no Ele que é do Antigo Testamento” (ver: Êxodo 3,14).
[17] Cf. Idem. Ibidem. p.56.
[18] Acerca do “objeto da metafísica”: Cf. MARITAIN, Jacques. Sete lições sobre o Ser. São Paulo: Ed. Loyola, 1996. p.89: “O objeto da metafísica é o ens sub ratione entitatis, o ser sob o expoente da inteligibilidade real do próprio ser; sua luz objetiva própria, é um tipo de visualização intelectual em que estão não somente as condições de singularidade, mas toda referência às percepções do sentido externo e toda referência a uma construtibilidade na intuição imaginativa”.
[19] CAMPOS, Fernando Arruda. Tomismo Hoje. São Paulo: Editora Loyola, 1989. p.23.
[20] Como já foi apontado acima (Cf. nota 7), o Tomismo é conhecido como: Filosofia Perennis ou Filosofia Existencial; mas, também é designado como: Filosofia Racional (não no sentido de racionalismo da filosofia da imanência dos modernos), Filosofia Clássica, Filosofia Tradicional, Filosofia Helênico-Cristã, Filosofia Aristotélico-tomista; e também, pela ênfase dos movimentos contemporâneos de Filosofia Neo-tomista ou Neo-escolástica.
[21] MARITAIN, Jacques. Humanismo Integral. São Paulo: Editora Nacional, 1942. p. 200.
[22] XIII, Papa Leão. Documentos de Leão XIII. São Paulo: Ed. Paulus, 2005. p. 90, §48.
[23] Cf. STh I, q. 3, a. 4, rep
[24] Cf. MARITAIN, Jacques. Sete lições sobre o Ser. São Paulo: Ed. Loyola, 1996. p.11.
[25] JOLIVET, Regis. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2001. p.265.
[26] Cf. MARITAIN, Jacques. Sete lições sobre o Ser. São Paulo: Ed. Loyola, 1996. pp.11-12.

Estudo Completo em:

http://www.consciencia.org/monografia_aquinoadriano.shtml 

 

Professor de Filosofia: Adriano de Araujo

BREVE REFLEXÃO DE UM TOMISTA ACERCA DA EDUCAÇÃO A PARTIR DE UM DOS DISCURSOS DE HEGEL.

December 7th, 2006

O Discurso de Hegel

Estudo do “Discurso de Encerramento do ano letivo – 29 setembro 1809” de Hegel 1.
Depois de um breve comentário acerca do convite “para apresentar num discurso a história do Ginásio no passado ano e mencionar aquilo que seja adequado para relação do público com o mesmo”; Hegel aponta alguns elementos acerca da vantagem reconhecida de uma “nova instituição escolar”, favorecida pela “necessidade de modificação”.
O “novo estabelecimento”, alude Hegel, é seguidor dos antigos estabelecimentos, evitando o “passageiro” e “experimental”.
Assim, Hegel expõe algumas “idéias gerais” provenientes de sua vivencia, ou seja, das “múltiplas atividades” exercidas por seu cargo em certo período. Com efeito, salienta que a finalidade e espírito do estabelecimento real é o “estudo erudito”, isto é, fundamentado nos gregos e romanos; afinal, o “fortalecimento da ciência e da cultura veio à luz, sempre a partir do retorno à Antiguidade”.
Além de reforçar a importância da fundamentação no antigo, Hegel também explícita a necessidade de evitar o que “havia de insuficiente, de desvantajoso nos antigos princípios e instituições em geral”, então, admite a existência de “sabedoria no governo” por ter cumprido “de forma mais verdadeira a necessidade do tempo, na medida em que colocou o antigo numa nova relação com o todo e deste modo tanto conservou o essencial deste como o modificou e renovou”. Assim, nota-se as seguintes modificações:

a) O lugar que aprendizagem da língua latina outrora tinha, considerando que tal aprendizagem na opinião geral se tornou infeliz; já que nessa nova relação com o antigo considera-se mais a importância “em exprimir os tesouros da ciência na sua própria língua…”. Portanto, tal aprendizado deixou gradativamente de ser um “meio de cultura universal e quase exclusivo” tendo sua realização sido particularizada.

b) A maior independência com relação à literatura dos antigos, isto é, no que diz respeito ao “estudo das ciências e na aquisição de aptidões espirituais mais elevadas e mais úteis”.

c) Conservação dos estudos de línguas antigas, ou seja, enquanto meio mais elevado de educação; porém, sem que existisse exclusividade como acontecia anteriormente.

Dentro de tais perspectivas, pode-se considerar maior autonomia ou liberdade na formação cultural, artística e cientifica de um povo; isto é, constituindo o assentamento em suas próprias possibilidades, evitando a determinação prejudicial na “mais elevada formação espiritual”.
Contudo, segundo Hegel, a “formação espiritual” deve começar sempre por se embebedar na literatura dos Gregos e em seguida na dos Romanos; assim, é necessário eivar-se primeiramente no profano, nos seus costumes, representações, e até mesmo nos seus erros e preconceitos; ora, como afirma: “… quem não conheceu as obras dos antigos viveu sem conhecer a beleza”. Afinal, trata-se de uma preparação, aprimoramento humano, pois se embebedar no antigo significa elevação das faculdades da alma, já que em tais circunstancias são “estimuladas, desenvolvidas e exercitadas”. Diante disso, Hegel considera que:

“… a matéria em que o entendimento e a faculdade da alma em geral se desenvolvem e exercitam, tem de ser simultaneamente um alimento. Não é toda a chamada matéria útil, toda matéria sensível, como ocorre de forma imediata no modo de representar da criança; apenas o conteúdo espiritual, que tem valor e interesse em para si mesmo, fortalece a alma e proporciona esta firmeza independente, esta interioridade substancial que é a mãe do autodomínio e da prudência, da presença e da vigilância do espírito”.

O “conteúdo espiritual”, nas palavras de Hegel, é o “valor independente”, o “fim absoluto”, é a base única e importantíssima da constituição do todo por seus membros; é aquilo que deve infectar um povo, um “estado social”; pois se não for assim haverá apenas insegurança e desmoronamento do Estado.
Com efeito, Hegel aponta que é nas obras dos antigos que encontramos o alimento necessário (conteúdo espiritual); oral, é lá que encontramos a “grandeza dos sentimentos”, “virtudes”, “patriotismo”, “costumes”, “leis” etc. Entretanto, enfatiza o vínculo que tal grandeza de conteúdos possui com a língua original; afinal, apenas por meio dela acessamos tais conteúdos, “sua plena propriedade” 2.
Hegel alerta que as traduções das obras dos antigos são como “às rosas de imitação, que podem ser análogas às naturais na forma, na cor, porventura também no perfume, mas que não atingem o encanto, a fragilidade e macieza da vida”; então, apresenta a necessidade de estudar a língua dos antigos; ou então, permanecer naquilo que é explicitado pela própria língua, privando-se da sabedoria profana.
Hegel entende que o anterior, o antigo, deve apresentar-se como objeto de transformação, possibilitando o reconhecimento cultural a partir de tal objeto; afinal, tal objeto deve ser modificado, transformado, para ganhar novas formas; pois é desse modo que se constata maior realização cultural.
A realização cultural exige um afastamento de si próprio, da própria condição, para que haja transformação e reconhecimento de si. Conforme Hegel, nesse caso, é no “mundo da língua dos antigos” que nos separamos de nós mesmos para nos reencontrar 3.
Em seguida, Hegel ressalta o valor do estudo da gramática, tão ligado à língua, pois acredita que “constitui o início da formação lógica”, “… nela começa, portanto, o próprio entendimento a ser apreendido”. Ele reforça que as determinações do entendimento são distinguidas na consciência por meio das articulações de sinais. Em suas palavras:

“Na medida em que, através da terminologia gramatical, aprendemos a mover-nos em abstrações, e que este estudo deve ser considerado como a filosofia elementar, este passa a ser considerado, no essencial, não como um simples meio, mas como um fim – tanto no ensino de Latim como no ensino da língua alemã”.

Assim, até mesmo no aprendizado da língua morta (como o Latim), existe “simultaneamente a vantagem de ser contínua e ininterrupta atividade racional”; desde que, considerando o fato de não ser língua materna, esteja em conformidade com certas regras.
Portanto, “o estudo dos antigos na sua língua original e o estudo gramatical constituem os elementos essenciais do princípio que caracteriza o estabelecimento”; entretanto, segundo Hegel, ainda não é suficiente, há necessidade de algumas indicações para domínio de maiores conhecimentos. Indicações de objetos que serão ordenados e distribuídos adequadamente, tais como:

“… o ensino da religião, a língua Alemã juntamente com a familiarização com os clássicos nacionais, Aritmética, mais tarde Álgebra, Geometria, História, Fisiográfia (que compreende a cosmografia), História Natural e a Física, Ciências Filosóficas Preparatórias; e ainda Francês, e também para os futuros Teólogos, Língua Hebraica, Desenho e Caligrafia”.

Enfim, Hegel faz suas últimas considerações e esclarecimentos exortando o estabelecimento de ensino real e seus avanços, os professores, pais, alunos etc.

A reflexão Tomista diante do estudo do discurso

Daquilo que considero favorável à boa educação.
Diante das considerações de Hegel é com imensa satisfação que vejo a manifestação de apreço pelo antigo na educação; pois não há dúvidas que o “fortalecimento da ciência e da cultura veio à luz, sempre a partir do retorno à Antiguidade”.
Também é fundamental do ponto de vista da “educação” certificarmo-nos daquilo que Hegel considerava como “necessidade do tempo”; ou seja, certificarmo-nos de que o antigo seja preservado naquilo que é essencial de modo que existam sempre modificações e aperfeiçoamentos.
Assim, fica explícito que na boa educação, não devemos conceber uma formação do tipo arqueológica, e menos ainda, conceber o novo pelo novo!… Afinal, é apropriado que o progresso no âmbito da educação não ocorra por meio de incessantes substituições, isto é, onde haja por sucessão múltiplos aspectos da razão ou perspectivas ideais, de formas de considerar o que já foi tratado; significa que, quando se considera o antigo, conseqüentemente considera-se aquele aprofundamento, aquele penetrar sempre no mesmo; significa que podemos sempre ler e reler as mesmas obras e sempre haverá uma nova descoberta, uma nova visão no mesmo.

Do problema de dizer que só é possível conhecer por meio da língua original.
Hegel também considera importante “… exprimir os tesouros da ciência na sua própria língua…”, o que é plausível do ponto de vista da independência, na divulgação do saber; entretanto, alerta que “… quem não conheceu as obras dos antigos viveu sem conhecer a beleza”, e considera que isto só é possível quando se conhece a língua original.
Será que só há beleza no conhecimento, oriunda dos antigos, quando se conhece a língua original?… Ora, conforme Hegel, a realização cultural exige um afastamento de si próprio, da própria condição, para que haja transformação e reconhecimento de si; e é no “mundo da língua dos antigos” que nos separamos de nós mesmos para nos reencontrar.
Contudo, no que diz respeito à realização no mundo da língua dos antigos, acredito que Hegel se engana profundamente!… Afinal, que o conhecimento da língua tenha sua importância é compreensível; entretanto, é adequado estabelecer que não conhecemos a beleza do pensamento nos antigos sem o conhecimento da língua original?…
Ocorre que na Filosofia encontramos exemplos de que tal concepção é falsa, pois Santo Tomás de Aquino também não conhecia a língua grega, contudo superou a obra de Aristóteles em muitos aspectos.
Foi por volta do ano de 1259 em Roma, que Sto Tomás conheceu o helenista Guilherme de Moerbeker, que traduziu direto do grego, a seu pedido, as principais obras de Aristóteles, nas quais pode trabalhar. Afinal, se Sto Tomás tivesse o domínio da língua grega, não haveria necessidade de um tradutor. Logo, foi a partir de traduções que alcançou bons resultados; isto é, superando Aristóteles nas abordagens relacionadas com a antropologia (Cristã), teoria do conhecimento, a metafísica, a ética e a política.
Com efeito, verificamos que a “beleza” do antigo não só foi concebida como ultrapassada, ou seja, sem que houvesse o conhecimento da língua original. E como afirmará o renomado filosofo francês Jacques Maritain: “Entre Aristóteles visto em Aristóteles e Aristóteles visto em Santo Tomás de Aquino, há a mesma diferença que uma cidade avistada através do clarão de tochas conduzidas pelos homens e a mesma cidade vista aos raios do sol matinal” 4.
Portanto, quando Hegel diz que as traduções das obras dos antigos são como “às rosas de imitação, que podem ser análogas às naturais na forma, na cor, porventura também no perfume, mas que não atingem o encanto, a fragilidade e macieza da vida”; constatamos um terrível engano.

Do reconhecimento de outras formas de abordagens filosóficas.
Entretanto, devemos atentar que existem várias formas de abordagens filosóficas implicando múltiplas concepções, seja na “educação”, na política, na ética, na linguagem etc; Ora, é evidente que qualquer modo da ação segue uma forma, pois a forma é sempre o princípio5 (aquilo pelo que as coisas procedem); desse modo, compreendo que Hegel presumiu uma forma na concepção da língua da qual não compartilho. Digamos que há um pé no velho erro dos nominalistas.
Ora, enquanto educador não é possível ignorar o conhecimento por conceitos, pela inteligibilidade do real; ou seja, aquele modo de conhecimento tão reprovado por neokantianos, neopositivistas, idealistas, bergsonianos, logicistas, pragmatistas, neospinosistas, neomisticistas etc; Decerto, eis o erro profundo dos nominalistas que percorre de modo mais ou menos variado os diversos posicionamentos filosóficos. Contudo, no momento, não convém abordar tais enganos.

Como compreendo a língua.
Assim, para que haja maior fundamentação nesta breve reflexão é importante compreender o que considero por língua.
Na forma de concepção não-nominalista, a língua, no sentido lato, é um conjunto de sinais escolhidos para exprimir os estados de consciência intelectiva. Ora, sabemos que o intelecto se percebe a si mesmo enquanto transporta ou concebe em si um inteligível ou conceito (essência, natureza, qüididade); sendo assim, a língua (enquanto sinais articulados de modo convencional) é apenas um meio de explicitação do inteligível, e nunca “um fim em si mesmo” como pretendia Hegel.
Quando Hegel diz que: “na medida em que, através da terminologia gramatical, aprendemos a mover-nos em abstrações, e que este estudo deve ser considerado como a filosofia elementar, este passa a ser considerado, no essencial, não como um simples meio, mas como um fim – tanto no ensino de Latim como no ensino da língua alemã”; certamente coloca aquilo pelo que comunicamos (sinal) no lugar daquilo que comunicamos (inteligível ou conceito).
Indubitavelmente, o problema é que muitos filósofos ao rejeitarem o “inteligível”, admitem apenas os sinais; com efeito, a língua torna-se um fim em si mesma.
Ora, inteligimos sobre as coisas por meio das idéias (espécies inteligíveis, similitudes psíquicas) ou por meio da língua (sinais articulados de modo convencional)?… Desde que se reconheça o signal (termos, palavras e suas articulações) como conceito, isto é, como inteligível, passa-se, então, a suprimir a inteligibilidade do real; desse modo, teríamos que admitir que inteligimos apenas por meio da língua, o que é um absurdo!…

Da imperfeição ou deficiência da língua enquanto “fim em si mesma”.
Na boa educação admitir que inteligimos apenas por meio da língua é ressaltar a noção de que existem línguas mais inteligentes que outras, pois existem várias línguas e onde há multiplicidade também há ordenação. Afinal, se tomarmos a língua como “um fim em si mesma”, sendo que é mais material e imperfeita, não acabaríamos designando certa hierarquia entre as línguas, e por fim caracterizando línguas melhores e piores?… E isso não seria diminuir ou anular a intelecção subordinando-a a uma condição de convenção signal?… Então não teríamos uma postura tendenciosa, ou seja, em estabelecer uma elite bem selecionada, isto é, pela própria língua?… É como quando se afirma que só é possível pensar quando se conhece tal ou tal língua, ou como diz aquela velha expressão de que “só é possível filosofar em alemão”, como se a filosofia fosse determinada apenas por sinais (filosofia do papagaio).

Do modo como concebo o ensino-aprendizado.
Hegel considera que “o estudo dos antigos na sua língua original e o estudo gramatical constituem os elementos essenciais do princípio que caracteriza o estabelecimento”; ora, como ficou demonstrado acima, tais estudos constituem apenas um meio do desenvolvimento na educação; portanto, não são absolutos.
Considero que toda a possibilidade de “ensino-aprendizagem” resulta do modo e ordem em que conhecemos; pois em nós, o conhecimento preexiste como uma potencialidade não puramente passiva, senão nunca conheceríamos por si mesmos.
Assim, é importante considerar que a educação (edução do conhecimento em ato a partir da potência do sujeito; ou seja, a condução da potencialidade de conhecer ao ato de conhecimento 6) é realizada sempre pelo próprio aluno com orientação do mestre.
Para que se torne evidente tal movimento (de educar), é adequado lembrar que é como na medicina, onde há duas formas de cura: uma que ocorre pela natureza e outra que ocorre pelo médico com ajuda dos remédios. Assim, há também, duas formas de conhecimento: quando a razão por si mesma atinge o conhecimento que não possuía, o que designamos por “descoberta”; e a outra quando se recebe ajuda de fora, a qual designamos por “ensino”.
Portanto, não convém apontar as indicações do objeto em que o aluno será instruído, sem antes conceber o próprio movimento em que o aluno esteja submetido, ou seja, movimento em que se deve manter a descoberta e o ensino sempre atuante.

Conclusão

Já que no texto Hegel enfatizou principalmente o conhecimento da língua original, procurei estabelecer apenas algumas controvérsias, isto é, uma espécie de breve confronto filosófico.
No entanto, trata-se apenas de uma reflexão sobre educação, reflexão em que é satisfatório problematizar a partir dos elementos encontrados; elementos que podem ganhar múltiplas formatações filosóficas (talvez bem mais apuradas) diante de qualquer pensamento bem fundamentado, o que certamente sempre demandaria muitas páginas. Contudo, acredito que apontei um problema capital acerca do modo e ordem do conhecimento envolvendo o papel da língua, o que certamente incitaria muitas disputas no âmbito da educação filosófica; como também, apontei, de modo mais restrito, outra forma no educar.

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Bibliografia

· Aquino, Santo Tomás; “Suma Teológica”, São Paulo: Ed. Loyola 2001.

· Aquino, Santo Tomás; “Sobre o Ensino” (De Magistro); São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004.

· G. W. F. Hegel, “Discursos sobre Educação”; Portugal: Ed. Colibri (Coleção Paidéia) 1994.

· Maritain, Jacques; “Introdução Geral à Filosofia” (Elementos de Filosofia I), Rio de Janeiro: Editora Agir 1977.

· Maritain, Jacques; “A ordem dos Conceitos lógica Menor” (Elementos de Filosofia II), São Paulo: Editora Agir 2001.

· Costa, José Silveira; “Tomás de Aquino – a razão a serviço da Fé”, São Paulo: Editora Moderna 1996.

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Notas
1 Extraído de: G. W. F. Hegel, “Discursos sobre Educação”; Portugal: Ed. Colibri (Coleção Paidéia); 1994. Estes Discursos do período de Nuremberga (1805-1816) apresentam-nos uma boa introdução à filosofia do espírito hegeliana. Os problemas da instituição, as opções pedagógicas, os eventos da vida escolar são abordados num enquadramento teórico perfeitamente acessível. Apesar do seu caráter fragmentário e circunstancial, os “Discursos sobre Educação” constituem a principal fonte para o estudo das posições de Hegel em relação a temas da educação e da pedagogia.

2 Note-se que Hegel crítica a exclusividade do aprendizado da língua antiga (latina); porém, reconhece sua importância enquanto meio de embebedar-se ou encontrar-se nas obras dos antigos.

3 Note-se como é possível (assim, como encontramos na longa construção da fenomenologia do espírito) uma vaga identificação das figuras da consciência, em que por meio delas é que há realização, verdadeira transformação, ou seja, aquele tornar-se espírito; pois é necessário que para tal possua a consciência-de-si enquanto espírito. Assim, é que a consciência passa por momentos que vão desde o estranhamento com o outro (neste caso o mundo da língua dos antigos), quando o outro ou o objeto é estranho a ela, momento da certeza sensível até a incorporação do outro como uma parte de si, a percepção, para então, uma posterior compreensão, de que o outro não é uma parte, mas outro de si mesmo. Afinal, é só por meio desse reconhecimento que se compreende o outro, o como o si mesmo; pois a consciência-de-si necessita de um outro a partir do qual faz um retorno sobre si mesmo.

4 Ver: Maritain, Jacques; “Introdução Geral à Filosofia” (Elementos de Filosofia I), Rio de Janeiro: Editora Agir 1977; pág. 65.

5 Ver: I, q. 85, a. 4 rep

6 Ver: Aquino, Santo Tomás; “Sobre o Ensino” (De Magistro); Ed. Martins Fontes, 2004; Tradução e introdução de Luiz Jean Lauand.
Professor de Filosofia: Adriano de Araujo

ALGUNS ELEMENTOS DA FILOSOFIA DA ARTE NO TOMISMO

November 25th, 2006

Da possibilidade da Estética na Filosofia Tomista 1

Breves considerações sobre o conceito “Estética”.
O termo “estética” foi empregado originalmente por Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762) para dar título à sua obra Aesthetica, de 1750 (obra inacabada que tinha por objeto a analise e a formação do gosto); trata-se de um neologismo que provém do grego aisthesis cujos significado é sensação, sentimento. Assim, a estética pode ser considerada como:

“O estudo dos julgamentos de apreciação quanto ao belo e ao feio. Teoria do belo, sua natureza e condições. Dividi-se em teórica, ou geral (estudo da nossa percepção do belo), e prática ou particular (estudo das diversas formas de arte)” [2].

O Filosofo Kant tomou a palavra noutro sentido na “Crítica da Razão Pura”, pois designou a Estética como sendo o estudo das “Formas a priori de sensibilidade”, mas na “Crítica do Juízo” considerou como sendo o juízo de apreciação relativo ao belo, uso que permaneceu constante.
Assim, a estética estuda o belo e o sentimento promovido pela sensibilidade do sujeito, por meio da arte. Considerando o objeto estético como sendo o belo, sua expressão ocorre na arte. A estética comporta as teorias da percepção e criação artística, e a arte tem por finalidade a expressão do belo enquanto objeto de excitação sensitiva e sentimental. Integrando-se à Filosofia, a Estética é designada também por Filosofia da Arte ou Filosofia do Belo.

O conceito de Estética no Tomismo.
O Tomismo conserva alguns elementos das concepções clássicas na doutrina da arte (ars); doutrina onde os antigos denominavam como arte, aquilo que entendiam por seu objeto próprio, poética (arte produtiva)[3] , nela o belo (pulchrum) não se incluía apenas como objeto a fazer, pois o belo explicitava a harmonia e manifestação ôntica no abrir-se à totalidade do real, do ser.
O conceito como é empregado atualmente (de estética) é considerado impróprio do ponto de vista Tomista; mesmo que Santo Tomás de Aquino tivesse tratado dos conceitos arte e belo em muitas das suas obras, tais conceitos, atualmente, não constituem a mesma forma de tratamento. Com efeito, na concepção Tomista, o belo não deve ser tratado somente na Filosofia da Arte, isto é, como se houvesse apenas belas-artes a serem consideradas na arte; afinal, o belo é um transcendental [4], é uma explicitação do Ser e do Ente, antes aquela explicitação em que os transcendentais uno, bom e verdadeiro se harmonizam: harmonia na qual consiste a fusão dos três transcendentais constituindo a recíproca convertibilidade transcendental do belo.
É fundamental considerar, também, que o conceito de estética refere-se apenas à sensibilidade, sentimento, enquanto os conceitos de arte e belo possuem maior amplitude, pois se referem tanto à sensibilidade como ao intelecto; afinal, é necessário reconhecer a natureza do conhecimento no homem, ou seja, aquela sobreexistência ativa imaterial, na qual há realização no outro enquanto outro de modo sensível e intelectual.
Conforme Santo Tomás de Aquino, a arte é como “a reta razão de fazer algumas obras” [5], e a beleza é o reflexo de Deus [6], pois “o ser de todas as coisas deriva da Beleza divina” [7].
Logo, no que se refere à expressão “Estética”, sua aplicação ocorre apenas de modo equívoco, sendo mais adequado o emprego da expressão Filosofia da Arte (ou do fazer).

Arte no Tomismo.
Ao estudar a arte no Tomismo estuda-se o “conjunto de princípios que regulam uma atividade prática ou produtiva; é a recta ratio factibilium” [8], tal estudo costuma ser designado pelos Tomistas como: Filosofia do Fazer.
A Filosofia do Fazer independe da Filosofia do Agir (ou moral), ambas consideradas Filosofias Práticas, embora muitas vezes o fazer seja contrário ao bem agir, e este último, ainda assim, é sempre maior e determinante no fazer.
Com efeito, mesmo considerando que o bem agir seja superior ao fazer, ocorre que nem sempre o artista ou artífice atinge o bem pela própria obra, e sim, o belo e útil; afinal, a obra não torna o artista ou o artífice bom, mas, habilidoso[9]. Entretanto, se existir boa vontade no fazer, a bondade se torna manifesta, e a obra torna explícito tanto o que é belo e útil, quanto o que é bom.
Portanto, a Filosofia do fazer (a arte) supõe e pode até ser o instrumento da Filosofia do Agir (moral), isto é, enquanto tende para o bem e o belo na obra a ser feita.
Vejamos as considerações do Filosofo Jacques Maritain acerca da obra a ser feita ao examinar o caráter essencial da arte:

“O caráter essencial da arte é dirigir uma obra a ser feita, de sorte que ela seja fabricada, amoldada ou disposta como deve ser, e desse modo assegurar a perfeição ou a bondade, não do homem que age, mas da própria coisa ou da obra a ser feita pelo homem. É desse modo que a arte pertence à ordem prática: regrando uma obra a ser produzida, não em relação ao uso que devemos fazer do nosso livre-arbítrio, mas em relação à maneira pela qual a obra como tal e em si mesma deve ser executada. Digamos que a arte concerne àquilo que é para ser feito (ou como costuma dizer, o factibilium)” [10].

Ainda convém esclarecer as posições do artista e artífice, pois vale notar que Santo Tomás de Aquino distinguia dois tipos de artes: as artes liberais (trivium: gramática, dialética, retórica; e quadrivium: aritmética, geometria, astronomia, música; que dependem mais da atividade intelectual) e as artes servis ou mecânicas (que dependem mais da atividade manual) [11], sendo a primeira atribuída ao artista, e a segunda ao artífice. Embora, o Tomista Régis Jolivet considere que:

“… nos dois casos (artista e artífice), trata-se de fazer passar uma idéia (idéia de mesa, idéia de relógio, idéia de melodia, idéia de um monumento ect.) para a matéria, de encarna-la de algum modo. Pois a arte é sempre o que regula esta impressão de idéia numa matéria sensível” [12].

No tomismo, atenta-se mais às artes liberais (do artista), não que nas artes servis se exclua o belo, já que o belo se torna presente nelas apenas por acréscimo; mas pela primazia das artes liberais.
Ora, é importante considerar que as artes liberais possuem grau de importância maior, não naquilo que é superado (Tomismo arqueológico), mas enquanto objeto de estudo digno de atenção a um Tomismo sempre vivo e inventivo.
Significa que, convém apontar o maior esforço intelectual exercido por parte dos artistas na obra a ser feita, afinal, tal arte é uma virtude intelectual, já que consiste na retidão de noção da obra a erigir. “Ela reside a princípio na inteligência, única a ser capaz de conceber a idéia a realizar na matéria, e os meios de realizar” [13].
Entretanto, antes de aprofundarmos o estudo acerca do esforço (ou movimento) intelectual ou espiritual do artista (ou poeta), isto é, a criação artística propriamente, é capital depreendermos um pouco acerca do Belo.

Considerações gerais acerca do Belo no Tomismo.

A partir do aprofundamento que atenta harmoniosamente às três explicitações do Ser e do Ente[14] (uno, bom e verdadeiro), na harmonia destes, é que encontramos uma outra explicitação, trata-se do belo.
Tal concepção de belo ou beleza é manifesta por Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica (I, q. 39, a. 39, 8 ) e considera três elementos: integridade, proporção e claridade.

Acerca da integridade.
Integridade equivale à unidade, pois expressa a indivisibilidade, a não-oposição, o que é positivo, com efeito, trata-se da perfeição, da plenitude do real.
Ao conceber a integridade, consideramos a coisa em que não falta nada, ou seja, a ausência de defeito, imperfeição, vazio, omissão, interrupções etc; assim, ela é a própria unidade do ser em oposição ao não-ser.
Portanto, “… o belo como uno é total positividade, a feiúra é ausência de positividade ou da totalidade de positividade, é a negatividade, e o feio é o negativo ou aquilo que em si é negativo”[15].

Acerca da proporção.
A proporção equivale à bondade, e é na bondade que há certa expressão da identidade volitiva, ou seja, autopossessão, realização da atualidade na volição.
Na proporção há conveniência, correlação, medida etc; nela ocorre a “perfeita fruição, beatitude e gozo, que o ser mostra no ser bondade e o ente no ser bom” [16].
Trata-se do regozijar-se no ser, pois é a expressão da realização da vontade, “é a proporção do ser consigo mesmo, a sua auto-posse consumada na total medida de si, na exaustiva consonância consigo” [17].
Daí o mal, enquanto privação, é causa da desconfiguração, fragmentação, desproporção naquilo que é bom; pois é origem da feiúra, sua oposição é constituída no feio.

Acerca da claridade.
A claridade equivale à verdade, pois é a expressão atual da identidade entre inteligência e inteligibilidade, é manifestação do ser iluminado, é a plenitude da aparição. Trata-se da evidencia e clareza da figura, onde se verifica que o ser exprime a verdade na sua clareza e o ente é claro no ser verdadeiro.
É na verdade que as coisas se esclarecem, pois ocorre o absoluto saber-se como ser, o falar-se de si de modo definitivo e absoluto.
“E como a verdade se opõem ao erro e a falsidade como não ser, isto é, como não esplendor, não luminosidade, não aparição, não fenomenalidade, não aparência, assim à claridade da beleza se opõe a feiúra como obscuridade, obscurecimento, ofuscamento, opacidade, inevidência, indefinitude e incerteza; e do mesmo modo, ao erro e ao falso se opõe o feio” [18].
Com efeito, a beleza é a explicitação posterior dos transcendentais, da unidade, da bondade e da verdade. Enquanto posterior, o belo é manifesto nos três transcendentais ao mesmo tempo, na própria concepção harmoniosa de convertibilidade neles.
Convertibilidade da unidade como integridade, da bondade como proporção e da verdade como clareza; logo, o ente é belo, enquanto, uno e integro, bom e proporcionado, verdadeiro e claro.

A Criação Artística ou Criação na Beleza.

Tendência para o Belo.
Como já foi dito, conforme Santo Tomás de Aquino, a beleza é o reflexo de Deus, pois “o ser de todas as coisas deriva da Beleza divina”; sendo assim, na criação artística há aquilo que o Tomismo designa por “analogia de procura de Deus na experiência poética, ou o conhecimento poético das imagens de Deus [19]”.
Na criação, o artista é atraído para um duplo absoluto, não é o Absoluto propriamente, mas a alma inclina-se para ele. E tal atração é manifesta por meio das exigências da Beleza que devem perpassar a sua obra, e poeticamente ele é incitado à criação na beleza; assim, de modo tão absorvente o artista separa-se dos outros homens, pois se reconhece no reflexo do Divino.
A beleza é um transcendental[20], não que seja uma explicitação por si do ser e do ente, e sim, uma harmonia para a qual confluem as três explicitações fundamentais: a unidade, a verdade e a bondade; daí, como já foi demonstrado, sua conversibilidade transcendental.
Portanto, a beleza é a perfeição nas coisas que atesta aquela proximidade com o infinito, e que possibilita ao artista uma intensa alegria de espírito.
Afinal, Deus é a Beleza subsistente, e sendo seu reflexo a beleza nas coisas, torna-se impossível ao artista, que é dedicado ao belo, não tender ao Divino e realizar-se de modo intenso.
Na criação artística primeiramente encontramos aquele impulso profundo e secreto para o princípio da beleza. Em “Caminhos para Deus” o Filosofo Jacques Maritain cita Baudelaire, que inspirado em Edgar Allan Poe, fala do instinto do belo; vejamos:

“… é ele, é esse instinto imortal do belo que nos faz considerar a terra e seus espetáculos como um esboço, como uma correspondência do céu. A sede insaciável de tudo que fica além e que a vida ultrapassa é a prova mais nítida de nossa imortalidade. É ao mesmo tempo, pela poesia e através da poesia, pela música e através da música, que a alma vislumbra os esplendores situados além da sepultura; e, quando um singular poema trás lágrimas aos olhos, essas lágrimas não constituem a prova de um excesso de júbilo; são, muito ao contrário, o testemunho de uma irritada melancolia, de uma exigência dos nervos, de uma natureza exilada na imperfeição e que desejaria apoderar-se imediatamente, mesmo nesta terra, de um paraíso revelado” [21].

Trata-se daquele conhecimento em que a nostalgia, o afeto se torna eminente; mas já é o conhecimento conatural que o artista possui do belo e, de certo modo, uma ascese ao Criador; contudo, ainda é um princípio, um movimento obscuro e inseguro, vulnerável pela ausência de luz da inteligência, do conhecimento de Deus.
Em tal conhecimento que nasce aquela emoção intuitiva na potencialidade da alma, na qual o poeta revela o obscuro conhecimento de suas mais profundas subjetividades, do seu íntimo sentido do real, corroborando na experiência poética. Acerca de tal experiência poética, diz Jacques Maritain:

“A experiência poética é um ato de recolhimento, que tem o efeito de um banho de frescor, de rejuvenescimento e de purificação do espírito; nascida de um contato com a realidade que em si mesma é inefável, e procura libertar-se cantando. É uma concentração de todas energias da alma, mas concentração pacífica, tranqüila, que não supõe tensão alguma; a alma encontra seu repouso neste lugar de frescor e de paz, superior a todo sentimento”.

Acerca da experiência Poética e a experiência Mística.
No Tomismo, é com o mundo criado, com a explicitação do ser e do ente que a experiência poética se ocupa, qualquer proximidade com Deus ocorre de modo análogo, pois o Ser é análogo [22]; já a experiência mística “se ocupa do princípio dos seres na sua unidade superior ao mundo”.
Com efeito, identificamos dois movimentos, o poético e o místico; sendo que o primeiro, trata do conhecimento conatural, de certo modo obscuro, que procede da emoção, da subjetividade, pois é voltado para expressão e termina na manifestação signal; o segundo, da conaturalidade mais obscura, porém, mais decisivo e seguro já que é oriundo da concentração intelectual ou espiritual, e é voltado para o silêncio, para o Absoluto.
A experiência poética ignora, de certo modo, a experiência mística; mas, também retém a espiritualidade reflexa existente nas coisas, nas criaturas; assim, é um conhecimento dos reflexos de Deus, caracterizada pelo conhecimento análogo, é um princípio obscuro e vulnerável, pois é natural.
É de modo confuso que o poeta ou artista reconhece no ser, os laços que necessariamente ligam a Deus a poesia e a beleza, com efeito, muitos poetas ou artistas não reconhecem a força Divina, mesmo que percebam que a poesia aproxima-se da religião, pois passam a confundir natureza com Deus.

O Ateísmo Poético.
Conforme o Tomismo, os poetas que preferem o ateísmo entregam suas obras ao vácuo espiritual, pois ao invés de acessar a luminosidade dos reflexos divinos, a profundeza do Criador; encontram, apenas o deserto interior, aquele paraíso dos abutres da ilusão, daí a expressão da própria angústia.
Entretanto, o poeta pode rejeitar a Deus e ser um grande poeta, contudo, sempre permanecerá na angústia, ou “paixão metafísica”; afinal, o ateísmo de um poeta nunca explicita segurança. Vejamos uma citação de Lautréamont [23]:

“Não mereço este infame tormento, oh tu, espião hediondo de minha causalidade!… Se eu existo, não posso ser outro… Minha subjetividade e o Criador – é demais para um cérebro apenas…”

Afirmará depois:

“Se recordamos a verdade da qual decorrem todas as demais, a bondade absoluta de Deus e a Sua ignorância absoluta do mal, os sofismas desmoronarão por si mesmos… Não temos o direito de interrogar o Criador seja sobre o que for?…”.

Conclusão.

Do que foi tratado, foi possível demonstrar “alguns elementos da Filosofia da Arte no Tomismo”; afinal, do ponto de vista artístico considerou-se apenas a forma dos princípios da Filosofia Cristã; ou seja, em contrário aos modos de tratamento do belo pela “Estética”.
Explicitamos as concepções realistas acerca do belo na arte ou obra executada, ou seja, do ponto de vista transcendental (enquanto harmonização da: integridade, proporção e claridade), de modo que, com isso fossem ressaltadas as fundamentações perenes da metafísica Tomista, tudo conforme ensina a “Filosofia Prática”.
Por fim, ressaltamos de modo sintético alguns aspectos da “criação artística ou criação na beleza”, julgando suficiente o exame da tendência ou impulso produtivo, considerando apenas a “experiência poética” e “mística”; como também, um exame breve do movimento contrário, explicitado pelo “ateísmo poético”.

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Bibliografia:

Huisman, Denis, “A Estética”, São Paulo: Editora Difusão Européia do livro 1955.
Mattos, Carlos Lopes, “Vocabulário Filosófico”, São Paulo: Editora Leia 1957.
Jolivet, R, “Curso de Filosofia”, Rio de Janeiro: Editora Agir 2001.
Aquino, Santo Tomás; “Suma Contra os Gentios”; Porto Alegre: EDIPUCRS 1996.
Aquino, Santo Tomás; “Suma Teológica”, São Paulo: Ed. Loyola 2001.
Aquino, Santo Tomás; “Seleção de Textos (pensadores)”, São Paulo: Nova Cultura 1988.
Molinaro, Aniceto, “Metafísica, Curso Sistemático”; São Paulo: Ed. Paulus 2002.
Molinaro, Aniceto; “Léxico de Metafísica”, São Paulo: Ed. Paulus 2002.
Maritain, Jacques, “Caminhos para Deus”, Belo Horizonte, Editora Itatiaia 1962.
Maritain, Jacques; “Introdução a Filosofia” (Elementos de Filosofia I), São Paulo: Editora Agir 2001.

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[1] A “Filosofia Tomista” envolve um sistema Filosófico e teológico de Santo Tomás de Aquino, cuja influência ainda hoje se observa, nos adeptos do neotomismo. Também denominada filosofia cristã e filosofia perene, o tomismo foi várias vezes proclamado como doutrina oficial da Igreja Católica (encíclicas Aeterni Patris, de Leão XII; Studiorum Ducem, de Pio XI; Mediator Dei e Homani Generis, de Pio XII). Distingue-se da escolástica, termo genérico que abrange as diversas escolas medievais, e traduz mais um método do que uma doutrina.

[2] Mattos, Carlos Lopes, “Vocabulário Filosófico”, São Paulo: Editora Leia 1957.

[3] Ver: Platão, Sof., 265 a; e Aristóteles, Ret., I, 11,1371 b 7.

[4] Por “transcendental” entende-se “aquilo que transcende, ultrapassa todas as categorias do ser e se aplica a tudo o que é ou pode ser, de qualquer forma que seja” – Jolivet, R, “Curso de Filosofia”, Rio de Janeiro: Editora Agir 2001, pg 265.

[5] Ver: I-II, q.57, a.3, e C.G. I,93;II,24.

[6] O Belo é um “reflexo de Deus” enquanto um transcendental que é, pois no Tomismo os nomes atribuídos a Deus são atribuídos apenas analogamente.

[7] Ver: De Divinis Nominibus, cap. 4, L – 5 ou I, q.39, a.8.

[8] Mattos, Carlos Lopes, “Vocabulário Filosófico”, São Paulo: Editora Leia 1957.

[9] Ver: I-II, q.57, a.4.

[10] Ver: Maritain, Jacques; “Introdução Geral à Filosofia” (Elementos de Filosofia I), Rio de Janeiro: Editora Agir 1977.

[11] Ver: I-II, q.57, a.3, ad.3

[12] Ver: Jolivet, R, “Curso de Filosofia”, Rio de Janeiro: Editora Agir 2001.

[13] Ibidem.

[14] O que podemos dizer sobre os termos “Ente” (ens) e “Ser” (esse)?… Afinal, “ens” traduzido por “ente” (sentido substancial, substantivo) e “esse” por “ser” (sentido verbal), estabelece que no primeiro modo o ente é o sujeito da ação; e no segundo modo a ação do sujeito, o ato de ser, o que uma coisa é, o que se expressa em sua definição – “Ente, Ser e Deus” extraído de: www.tomismovivo.bogspot.com.

[15] Ver: Molinaro, Aniceto, “Metafísica” (curso sistemático); São Paulo: Ed. Paulus 2002, pág, 94.

[16] Ibidem.

[17] Ibidem.

[18] Ibidem.

[19] Ver: Maritain, Jacques, “Caminhos para Deus”, Belo Horizonte, Editora Itatiaia 1962.

[20] Ver nota 4.

[21] Baudelaire, “Théophile Gautier”, em L’ Art Romantique.

[22] É importante considerar que no Tomismo “… a existência criada, esta para a existência incriada, assim, como a “natureza” esta para o “sobrenatural”; entretanto, vale lembrar que o ser no ente criado é análogo” – “Ente, Ser e Deus”, extraído de: www.tomismovivo.bogspot.com.

[23] De “Chants de Maldoro, (Oeuvres compètes, Paris, G.L.Ml., 1938). Extraído de : Maritain, Jacques, “Caminhos para Deus”, Belo Horizonte, Editora Itatiaia 1962 – pág. 70

Professor de Filosofia: Adriano de Araujo.

ALGUNS DEFEITOS DO NEOTOMISMO E DEFESA.

November 25th, 2006
Os argumentos de Johannes Hessen :

1. A deficiência fundamental do neotomismo consiste em admitir apenas duas fontes de conhecimento: os sentidos e a razão, desconhecendo a experiência ou a vivência interior como terceira fonte, pela qual se conhece a realidade espiritual e se apreciam os valores. Em conseqüência, o neotomismo não conhece uma esfera autônoma dos valores, nem concebe que a religião não precisa do fundamento externo ou heterônomo da razão filosófica, podendo fundamentar-se a si mesma pela certeza da experiência intima e autônoma dos valores religiosos.

2. Desse defeito gnosiológico resulta outro, ontológico: a confusão do ser com o bem e o valor (omne ens verum).

3. O defeito lógico do neotomismo é a confusão do ser e da verdade ou inteligibilidade racional. É a conseqüência da transposição aristotélicas das Idéias platônicas dentro da realidade sensível, donde resulta o pseudo-problema da individuação desta. Pois, se a realidade sensível é concebida como essencialmente ideal e universal, porque é que se nos apresenta composta de indivíduos materiais? – Esse platonismo às avessas gera também a confusão entre ser e valor, porque as idéias platônicas não são conceitos ontológicos, mas sim a esfera autônoma das idéias axiológicas. A confusão do verdadeiro e do ser é posição para sempre arruinada pela crítica de Kant. É devida à ignorância de que a racionalidade do real não se pode mostrar nem demonstrar senão apenas postular.

4. Em virtude do postulado da inteligibilidade racional de todo o ser, o método da metafísica neotomista é essencialmente a priori ou dedutivo, a despeito das pretensões de proceder a posteriori ou indutivamente, em contato com a experiência dos fatos e os resultados das ciências experimentais.

5. O neotomismo não distingue entre metafísica e cosmovisão. Por causa da confusão intelectualista, entre ser e verdadeiro ou inteligível, acredita serem solúveis pela razão todos os problemas vitais da existência humana, olvidando que a mundividência do homem, as crenças sobre Deus, o fim da vida e o sentido da história são radicalmente oriundas de fontes irracionais, mormente ético-religiosas.

6. Tudo isso impossibilita a síntese intrínseca entre o neotomismo e a filosofia moderna. Desta, sem dúvida, os neotomistas incorporam algumas idéias e não raro adotam a linguagem. Mas no fundo se opõem ao pensamento moderno, mormente nos pontos em que este representa um progresso sobre a escolástica. Assim, confirmam não ser possível verdadeira síntese entre o neotomismo e a filosofia moderna, precisamente porque a escolástica pertence a uma fase da evolução da consciência filosófica definitivamente superada pelo pensamento moderno.

7. Além disso, enquanto os neotomistas não rejeitarem a teoria hilemórfica, incompatível com a moderna física da matéria, será inviável qualquer síntese autentica entre neotomismo e a moderna ciência da natureza.

8. Enfim e, sobretudo, o neotomismo é, como o próprio tomismo, endurecido pela teologia, o que lhe tira o caráter de filosofia cientifica. Nem vale ponderar que só na teologia revelada a filosofia neotomista é propriamente instrumento ao serviço da teologia. Pois, enquanto for considerado como instrumento único e absoluto, indispensável e essencial à teologia revelada, o neotomismo não poderá deixar de ser uma disciplina essencialmente ordenada a fins teológicos e eclesiásticos e não uma filosofia pura ou propriamente dita.

Em sentido contrário (contra-argumentos de Adriano de Araújo):

1. Conceber um “neotomismo”, indubitavelmente, só pode expressar a gigantesca deficiência na concepção da Filosofia Perene; afinal, não se trata de conceber o “novo”, e sim, o tomismo vivo, que mantém sua natureza essencialmente progressiva.

Como diria Jacques Maritain:

“… é preciso que defendamos a sabedoria tradicional e a continuidade da Filosofia Perene contra os preconceitos do individualismo moderno, já que este gosta, estima e procura o novo pelo novo e só se interessa por uma doutrina na estreita medida em que ela representa uma criação, a criação de uma nova concepção de mundo” .

Ao considerar que a “deficiência fundamental” do tomismo é admitir duas fontes do conhecimento (sentidos e razão), Hessen, evidencia sua falta de compreensão dos modos e ordem do conhecimento apresentados na Filosofia Perene.
Alega que o tomismo desconhece a “experiência ou vivência interior como terceira fonte, pela qual se conhece a realidade espiritual e se apreciam os valores”; entretanto, a experiência ou vivência no tomismo resulta das modificações recebidas pelos objetos exteriores, que excitam nossos sentidos, sendo que, através do organismo sensitivo constituímos representações imaginarias (ou sensíveis) na qual a inteligência no exercício de suas faculdades (abstração e apreensão) constitui a realidade espiritual, como também, seus valores ou os “bens” que são ditados pela vontade (apetite intelectual).
Assim, é pela experiência ou vivência da realidade (existência extramental) que a nossa inteligência volta-se para todas as coisas: Deus, o homem, a beleza, a pedra, a virtude, todas as coisas reais ou possíveis, concretas ou abstratas, de modo que, reconhece-se em si mesma. Pois, reconhecer-se, é o que no tomismo designa-se por Reflexão ou consciência intelectual.
Aquilo que Hessen designa por “experiência intima e autônoma dos valores religiosos” expressa justamente sua subjetividade, como também, a soberba humana que busca sempre ser autônoma, e que nunca reconhece ser parte de uma realidade Criada, isto é, como ocorre no Cristianismo verdadeiro.
A religião é justamente aquilo que procura re-ligar o homem (ser criado) a Deus (ser incriado); o que justifica a inteligência (faculdade do ser) e a vontade (faculdade pela qual o sujeito intelectual tende para ao ser inteligível) enquanto potências espirituais no homem.

2. Do que já foi exposto verifica-se que o “defeito gnosiológico” atribuído equivocadamente ao tomismo é proveniente da má compreensão de Hessen dos modos e ordem do conhecimento.
Ora, a inteligência atualiza-se na posse do ser, daí defini-la como “faculdade do ser”, pois enquanto atuação, identifica-se a inteligência como o ato de intensidade variável em que o enriquecimento da assimilação exterior cresce na medida em que cresce sua vida imanente. Logo, a inteligência só é, enquanto apercebe-se no inteligível (essência, ser do ponto de vista da inteligência).
No tomismo o ser é o ato pelo qual a essência é, sendo que a essência de todas as coisas provém de um Ato puro, que é Ser a si (Deus). Assim, é a partir de Deus (Ser subsistente em si mesmo), enquanto atuação pura, que os outros seres criados são (existem).
E já que o ser criado só é a partir do Ser incriado (Deus), constata-se a tendência natural de sua atuação, pois todos os seres criados tendem a seus fins, o que indubitavelmente, constitui um bem a ser realizado, pois a condição de existência é o bem do ser criado; como Deus é Ser e Bem subsistente em si mesmo, e tudo que existe é por ele; toda criação tende a ele (Supremo Bem) .
Portanto, para o ser criado só há valor naquilo que expressa um bem, e tal bem é sua condição de ser, de existir.

3. No tomismo a lógica é aquilo que estuda a “inteligência” enquanto instrumento (organon) do conhecimento, pois através da lógica reconhecemos as regras para que possamos raciocinar corretamente (lógica formal) e as condições em que o raciocínio é correto, verdadeiro e demonstrativo (lógica material), logo, não há confusão alguma.
Também, não há, como pretende Hessen, “transposição aristotélica das idéias platônicas dentro da realidade sensível”, mas, superação do dualismo platônico na concepção de idéia dada pelo modo aristotélico.
Hessen ainda questiona:

“Pois, se a realidade sensível é concebida como essencialmente ideal e universal, porque é que se nos apresenta composta de indivíduos materiais?”.

O tomismo concebe a individualidade no conhecimento sensível e a universalidade no conhecimento intelectual; no primeiro modo há as representações imaginárias eivadas de matéria enquanto substrato inteligível, entretanto, após abstração e apreensão das espécies inteligíveis em tal representação imaginária, constitui-se o segundo modo, isto é, o conhecimento intelectual, onde se considera apenas o que é universal. Assim, as coisas existem individualmente através da matéria determinada pela quantidade (dimensionamento material) e universalmente em espécie inteligível.

Jacques Maritain esclarece a noção de idéia:

“Ao pensar homem, por exemplo, como qualquer outro objeto diretamente apresentado ao espírito em uma idéia humana (idéia abstrata), colocamos diante de nós algo de despojado de individualidade, e que, sendo apreendido por um único conceito, constitui em nosso espírito um só e único objeto de pensamento – que, portanto, é no nosso espírito algo de um (homem) capaz de ser em vários (em todos os homens) ou algo de universal” .

Hessen, talvez por estar eivado de nominalismo, demonstra dificuldades em conceber a ordenação (material ao imaterial, individual ao universal) do conhecimento humano; ordenação que evidencia a espiritualidade do homem. Desse modo, ele persiste na concepção platônica de idéia, pois não compreende que a noção de idéia é outra tanto no aristotelismo como no tomismo; afinal, ocorre um progresso intensivo de uma concepção filosófica à outra.
Do mesmo modo, tal dificuldade, ocorre com maioria dos filósofos que por não compreenderem a solução tomista acerca dos “universais” permanecem na confusão.
Ora, o próprio Hessen faz alusão a Kant:

“A confusão do verdadeiro e do ser é posição para sempre arruinada pela crítica de Kant. É devida à ignorância de que a racionalidade do real não se pode mostrar nem demonstrar senão apenas postular”.

Por não compreenderem a solução tomista, muitos filósofos acreditam haver confusão na concepção de verdade, de ser etc; com efeito, negam que os princípios necessários e universais sejam intrínsecos à inteligência, e consideram que sejam apenas postulados.

4. Como afirmamos não se trata de postular a “inteligibilidade racional de todo ser”, pois as verdades primeiras se impõem por si só a quem quer raciocinar, embora, nega-las seria reduzir-se ao estado de plantas como já disse Aristóteles.
Ao considerar que o “método da metafísica tomista seja a priori ou dedutivo”, Hessen, evidencia sua pouca compreensão da filosofia tomista (ou perene) no que se refere ao conhecimento sensível (que estuda os sentidos externos, internos) e o modo que se estabelece o conhecimento intelectual (que estuda as três operações: conceito, juízo e raciocínio).

5. A metafísica se direciona a observação de toda realidade e “se orienta na sua estrutura só pelos seus próprios princípios, possui independência tal que se pode, sem exagero, falar duma transcendência da metafísica relativamente às ciências naturais” . A metafísica é necessária tradicional e perdurável.
Considerando “cosmovisão” enquanto concepção do mundo deve-se dizer, sim, que o mundo real é capital no exercício da metafísica, afinal, o metafísico é aquele que possui um aperfeiçoamento muito elevado e raro da inteligência, com efeito, enquanto o metafísico procura intuir o ser enquanto tal, o cientista experimental apenas concebe o ser como um suporte fenomênico observável e mensurável.
Johannes Hessen não compreendeu que a confusão só é existente em tomar por metafísica, a pseudometafísica dos modernos (ou a metafísica subjetiva) que não passa de metafísica da imaginação, onde não há visualização intensiva da realidade, e sim, uma visualização mirabolante constituída pela imaginação.

6. Decerto, há alguma distancia no que diz respeito à Filosofia Tomista e a filosofia moderna; embora, muito da terminologia empregada pelos modernos é oriunda da Filosofia Perene; contudo, a escolástica representou muito na construção das diversas filosofias modernas, desde a escolástica no ápice até a sua decadência constituída por filósofos como: Duns Escoto, Ockham, Suarez entre outros. O que significa que muitos filósofos modernos tiveram suas bases no modelo escolástico, tais como: Descartes, Spinoza etc.
Considerando alguns aspectos de ordem prática ou técnica a filosofia moderna se destacou, porém, no que diz respeito ao modo abstrativo e imaterial de se fazer Filosofia a Escolástica é insuperável (considerando a Escolástica no seu esplendor).
O erro de muitos filósofos a partir da filosofia moderna se deve muitas vezes ao preconceito ou ignorância com relação à Filosofia Perene. Afinal, como já foi dito acima, a Filosofia deve progredir por intensidade, não por substituição.

7. O hilemorfismo é de capital importância na concepção da Filosofia Perene, decerto é incompatível com a “razão geométrica” (concepção da matéria enquanto ponto geométrico, por exemplo, ou um tipo de conatus) que conduzia as especulações dos filósofos modernos; entretanto, tal concepção, hilemórfica, não deve ser negligenciada; pois a física moderna de modo nenhum tem em vista aquilo que o filosofo chama de “substância” das coisas materiais, aquilo que é puramente inteligível e não é percebido pelos sentidos, nem por meio de qualquer instrumento; pois “… a matéria e a energia da física são entidades físico-matemáticas construídas pelo espírito para exprimir o real e são correspondentes àquilo que o Filosofo designa por propriedades estruturais (quantidades e qualidades)” .
Na esfera do real ou da existência extramental a matéria e energia não são “a si”, incausada, mas causadas por atuação de outro, pois há uma moção proveniente de uma causa primeira; ora, mesmo reconhecendo a concepção simbólica correspondente ao sistema de prótons, elétrons e nêutrons etc; concebida pelo físico, ainda assim, ao tratar da esfera do real, supõe-se o movimento pela ativação de uma causa primeira, isto é, que justifique a determinada indeterminação determinável decorrente da concepção hilemórfica.
Hessen não compreendeu que a física moderna trata a matéria do ponto de vista físico-matemático, onde o ser é apenas uma espécie de suporte para os fenômenos observados e mensurados constituindo um conhecimento simbólico do real.

8. Decerto, o tomismo coloca a Razão a serviço da Fé, porém, diferencia o que é mistério ontológico daquilo que é problema raciocinado.
A Razão problematiza, isto é, nela “lida-se com um progresso linear e por sucessão de aspectos racionais ou de perspectivas ideais, de formas de conceituar o objeto; e, se uma primeira solução é incompleta (é sempre o caso), a outra a substituirá” ; já o mistério ontológico, “… predomina naturalmente onde o conhecimento se esforça por descobrir o “Ser em si mesmo” e os segredos do Ser, seja intuitivamente, seja por analogia. Os segredos do ser, do conhecimento, do amor, de realidades puramente espirituais, da causa primeira (e acima de tudo, da vida intima de Deus). O aspecto “mistério” predomina na filosofia da natureza e, mais ainda, na metafísica (e ainda mais na teologia)
A Teologia trata “… do ponto de vista do Verbo de Deus visto face a face – é a sede espiritual. É quando tenho sede de ver Deus e quando o vir ficarei completamente saciado, não terei mais sede. Isso já acontece, em certa medida, com a beatitude que começa aqui embaixo, com a participação na vida eterna” (João 4,13-14) .
A dificuldade de muitos modernos consiste em problematizar aquilo que é misterioso e tornar misterioso o que deve ser problematizado, é como querer purificar o que é impuro, por exemplo: tornar o homem um Deus (idéia de Soberano ou homem artificial) ou torna-lo um fim em si mesmo, um tipo de mini-Deus (concepção kantiana) etc.
Portanto, o tomismo entende que não há “Filosofia pura”, já que pureza expressa inteireza, completude, perfeição; ora, a Filosofia não indica amizade à Sabedoria?… Então, como pode existir uma Filosofia pura, se há uma busca incessante de inteireza?… Penso que Johannes Hessen, promove mais uma “ideosofia” do que Filosofia propriamente.

Bibliografia:

· Van Acker, Leonardo, Coleção de Textos EDUSP (Texto Cinco), “O Tomismo e o Pensamento Contemporâneo”; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo 1983.

· Maritain, Jacques; “Sete lições sobre o Ser”, São Paulo: Ed. Loyola1996.
· P.DR. Da Silva, Alves, “Elemento da Filosofia Aristotélico-Tomista”,Ed Saraiva1938 .
· Molinaro, Aniceto, “Metafísica”, Curso Sistemático; Ed. Paulus 2002.
· Correa de Barros, Manuel, “Lições de Filosofia Tomista”, Editora Figueirinhas 1945.
· Maritain, Jacques, “Caminhos para Deus”, Belo Horizonte, Editora Itatiaia 1962.

Professor de Filosofia: Adriano de Araujo

ELEMENTOS DA FILOSOFIA TOMISTA EM JACQUES MARITAIN

August 7th, 2006
Acerca de Jacques Maritain
1882 – Nasce em 18 de novembro, em Paris, filho de Paul e Geneviève Favres (filha de Jules Favres, notável homem político).

1900 – Começou seus estudos na Sorbonne, onde encontra Raissa Oumançoff (nascida em Rostov, ao sul da região de Don, na Ucrânia, em 1883) que desposará em 1904.

1905 – Conversão ao Catolicismo; no ano seguinte, Raissa e sua irmã Vera receberão o batismo.

(1906 – 1908 ) – Comprometeu-se numa pesquisa que o reteve na Alemanha por dois anos, cuja finalidade era o exame das ciências biológicas ali; assim, fixou-se em Heidelberg, junto a um notável experimentador, cujos trabalhos ele foi o primeiro a conhecer na França, Hans Driesch, Maritain pode assistir junto a ele o que chamaria de “uma restauração da Filosofia Natural”, no sentido de Aristóteles. Driesch, com efeito, por suas descobertas sobre a fisiologia e o desenvolvimento embrionário renova pela via experimental a concepção do ser vivo, e reinventa, ainda que fosse kantiano, algumas das noções fundamentais do aristotelismo.

(1909 – 1923) – Período de Versailles, Estudo das obras de Santo Tomás de Aquino. Pública seu primeiro artigo: A ciência moderna e a razão (1910), e seu primeiro volume: A Filosofia Bergsoniana (1914), que representa o manifesto do nascimento Tomista na França. É professor de filosofia do instituto Católico de Paris e nomeado Doutor da Sagrada Congregação para os seminaristas e as Universidades. Em 1920, inicia as reuniões de onde nasceram os Círculos tomistas, que foram até 1939. Publica o Antimoderno e, juntamente com Raissa, Vida de oração (1922).

(1923 – 1939) – Período de Meudon. Publica numerosas obras, entre as quais: Primado do Espírito (1927), Religião e Cultura (1930); a sua obra mestra: Distinguir para Unir ou os Graus do Saber (1932); a sua obra mais conhecida: Humanismo Integral (1936); juntamente com Raissa: Situação da Poesia (1938). Difunde-se nos países a sua fama de filosofo tomista. Participa ativamente do debate político.

(1940 – 1960) – Período Americano. Ele é obrigado a deixar a França (Raissa e Vera são Judias); os Maritain se transferem para os Estados Unidos. Em Nova Iorque, a sua casa torna-se um ponto de encontro entre grandes intelectuais e artistas franceses no exílio.
Ensina em algumas Universidades Americanas. Entre outras coisas, pública: Cristianismo e Democracia; Rumos da Educação (1943) e De Bérgson a Santo Tomás de Aquino (1944). De 1944 a 1947, ele é embaixador da França junto à Santa Sé e preside a Conferencia Geral da Unesco (1947). Voltando para o ensino, é professor da Universidade de Princeton (1948 a 1959). Publica entre outros livros: O significado do ateísmo Contemporâneo (1949); O homem e o Estado (1951); A intuição criativa na Arte e na Poesia; Em busca de Deus (1953); Por uma Filosofia da História (1957); A filosofia Moral (1960); em colaboração com Raissa: Liturgia e contemplação (1959). Entre os diversos prêmios e homenagens recebidos temos: O anual “Christian Culture” (1942), o Prêmio de Leão XIII da parte da Scholl of Social Studies de Chicago (1948); a cadeira de honra da parte do Centro Católico dos intelectuais franceses de Paris (1956); a fundação do Centro Jacques Maritain da Universidade de Notre-Dame em Indiana (USA) (1958).
Em 1959, morre sua cunhada Vera e, no ano seguinte, em Paris, Raissa, durante uma de suas viagens a França.

(1961 – 1973) – Período de Tolosa. Estabelece-se junto aos irmãozinhos de Jesus em Tolosa. Recebe o grande prêmio de literatura da Academia Francesa e o grande prêmio nacional de letras. Publica duas obras de Raissa: A observações sobre o Pater e O diário. Em 1965, recebe de Paulo VI, na sessão conclusiva do Concílio Ecumênico Vaticano II, a mensagem aos intelectuais. Pública algumas obras filosóficas de teologia: Deus e a permissão do mal (1963); A igreja de Cristo (1970).
É também importante a publicação de seu volume autobiográfico: Memórias e apontamentos (1965). Em 1970, recebe o hábito dos irmãozinhos de Jesus em Tolosa, pronunciando os votos em 1971.

1973 – Morre em 28 de abril em Tolosa, sendo sepultado em Kolbshein ao lado de Raissa. Sai um volume póstumo: “Escritos de filosofia Cristã”.

Posicionamento de Maritain diante da Modernidade

Jacques Maritain dispõe de uma abertura muito grande aos interesses de seu e ainda nosso tempo; Como também, “nos estimula à releitura empenhada a reencontrar hoje, na presença de exigências humanas e culturais a validade perene de seu ensinamento”.
Maritain é muito conhecido pelo seu pensamento político, onde há a proposta de uma “nova cristandade”, não mais sacral, no sentido medieval, mas aberta a valores num sentido pluralista e democrático, portanto aparentemente “moderna”, mas que na verdade revela sapiência e caráter teológico-cristão.

De acordo com Maritain o homem se constitui como indivíduo e pessoa; enquanto o indivíduo significa a matéria (corpo) e suas necessidades, a pessoa humana significa a liberdade, os direitos, pois não é parte de um todo, mas é o próprio todo, ou seja, um todo, uma alma que existe pela inteligência e a vontade. Assim, os conceitos: individuo e pessoa compõe o homem, não podendo existir separados; pois justamente isso é o que possibilita “o reconhecimento de valores num sentido pluralista e democrático” para uma constituição da cristandade.

Para que possamos elucidar tal questão, vejamos o trecho de “Os direitos do homem”:

“A pessoa é um todo, mas não um todo fechado. É um todo aberto, e não um pequeno Deus sem portas nem janelas como a mônada de Leibniz, ou um ídolo que não vê, não ouve, nem fala. Por sua própria natureza ela tende para a vida social e para comunhão”.
“Assim, acontece não somente em virtude das necessidades e indigências da natureza humana, em razão das quais cada um tem necessidade dos outros para sua vida material, intelectual e moral, mas também por causa da generosidade inscrita no próprio ser da pessoa, e por ser espírito aberto às comunicações da inteligência e do amor, é que exige a relação com outras pessoas. Falando de maneira absoluta, a pessoa não pode estar só. O que ela sabe, quer transmitir; e a si mesma ela quer afirmar-se a quem, se não as outras pessoas? Pode dizer-se com Jean-Jacques Rousseau que o hábito do homem é mortal ao homem; e com Sêneca: toda vez que estive entre os homens, voltei menos homem. Isto é verdade, e por um paradoxo fundamental, não podemos, todavia ser homens, sem viver no meio de homens; não podemos fazer crescer em nós a vida, a atividade sem respirar o mesmo ar que os nossos semelhantes”.

É evidente que Maritain quer significar que através da pluralidade, diferenças individuais, concebemos nossas semelhanças enquanto pessoas.
A perenidade do pensamento de Maritain nos remete “ao renascimento do Tomismo e da liberdade intelectual”, esclarece o sentido verdadeiro de sua rejeição da modernidade e do retorno à filosofia de Santo Tomás de Aquino que não é reacionarismo cultural e político[1].
A partir daí fica explicito o afastamento da influência positivista, como também, do intuicionismo de Bérgson, que já se caracterizava parcialmente libertador; Maritain admite que a filosofia tomista é verdadeira e genuína filosofia crítica, já que esta alimentada pela fé, “e só por isso capaz de colocar-se acima das influências e desvios históricos, na dimensão da sabedoria, da verdade perene”.

Que fique claro, que “não se trata de um retorno à Idade Média, mas de libertar-se do historicismo[2], filho moderno da rejeição hipercrítica da verdade cristã e suas manifestações filosóficas: subjetivismo e transcendentalismo, cujos mestres são os três reformadores, Lutero, Rousseau e Kant”.
A filosofia moderna não cumpriu a sua missão, afinal, “não cresceu na casa da sabedoria revelada”.

Vejamos um trecho acerca do humanismo Cristão em “Religião e Cultura” (de 1930):

“A Sabedoria Cristã não nos propõe voltar a Idade Média, mas convida-nos a andar para frente. A civilização da Idade Média, com efeito, por mais bela e grande que tenha sido, e certo, a mais bela nas lembranças depuradas da história do que na realidade vivida, ficou bem longe de realizar plenamente a noção cristã de civilização. Esta noção opõe-se ao mundo moderno, à medida que este é inumano, mas não à medida que o mundo moderno, não obstante tudo que lhe falta em qualidade, comporta em crescimento real da história, a concepção cristã da cultura não lhe é oposta. Ao contrário, ela gostaria de salvar e reconduzir à ordem do espírito todas as riquezas de vida que o mundo moderno contém…”.

Maritain também concebe aquilo que denomina no “Antimoderno” de “ideosofia”, “se trata da clausura do homem no mundo fictício por ele criado, em que hoje se encontra no “pensamento fraco”, que se considera pós-moderno sem ter rejeitado a essência da modernidade e ainda denomina-se pós-cristão”.

Na obra “Antimoderno”, Maritain esclarece a importância moral da revelação e da verdade da fé, “como condição humana e historicamente verificável em concreto para adquirir a verdade filosófica”, cuja filosofia enquanto submetida à palavra de Deus dá-nos a liberdade do espírito assentando as bases da relação entre filosofia e revelação.
Com isso, Maritain demonstra a possibilidade, isto é, a necessidade histórica e moral de uma “filosofia Cristã”.

Desse modo, é antecipado através do realismo tomista e a luz da fé, a libertação do “moderno” , como também, sua ultrapassagem; o que ocorre mais ou menos penosamente com o pós-moderno (Husserl, Heidegger, Marcel etc;), no qual existe a “abertura do sujeito, antes fechado em si, à intersubjetividade, e à transcendência”.
Essa antecipação do realismo tomista ocorre mediante uma ascética da inteligência, que submetida à fé e nela permanecendo, atinge a liberdade de ver a verdade natural-filosófica, o que será importante no desenvolvimento do cristianismo dentro do terreno histórico-socio-político.
É através dessa perspectiva do “intelectualismo maritainiano” em função da fé cristã, que se atinge uma verdade filosófica, “aberta já em si mesma a uma mais completa verdade, que a transcende e a torna, ao mesmo tempo, historicamente possível e humanamente realizável”.
“A sabedoria maritainiana tende a traçar essa verdade integral, unindo e distinguindo em si, ao mesmo tempo, vários “graus[3] consecutivos e convergentes, são os elementos racionais-naturais, revelados-sobrenaturais, medievais, clássicos e também modernos, mais depurados de seus contingentes desvios e caducidades”.

Os graus do Saber

A fundamentação da verdade no saber filosófico é independente da sabedoria Cristã, pois é constituído pela intuição abstrata do Ser, ora, trata-se de uma intuição imperfeita já que esta acompanhada da abstração[4], “porque a formalidade pura do actus essendi nunca é captada separa do seu limite criatural (que é o limite do sujeito cognoscente)”, e nunca é uma essência[5] absoluta e sim como aquilo que é “suprainteligível”.

Vejamos o que diz Maritain nas “Sete lições sobre o Ser” (de 1934), acerca da “Intuição abstrata do Ser”:

“A intuição do Ser é abstrativa – eis uma palavra venerável que as deformações de um longo uso, que todos os tipos de erros e de mal-entendidos tornaram suspeitas aos ouvidos dos modernos. Em vez de dizer abstração, proponho-lhes dizer visualização eidética ou ideativa; digamos, portanto, que a intuição do Ser é uma intuição ideativa (e como seria diferente para nossa inteligência humana em seu exercício especulativo?). Esta intuição esta no cume da intelectualidade eidética – e o que quer dizer a expressão visualização eidética (abstractio)? Isto quer dizer que a inteligência, por ser espiritual, proporciona a si mesma objetos, eleva-os dentro de si mesma a “graus” diversos, cada vez mais puros de espiritualidade e de imaterialidade. É em si, dentro de si, que ela atinge o real, desexistenciado de sua própria existência, extramental, e abrindo e proferindo no espírito um conteúdo, uma intimidade, um som, uma voz inteligível que só pode ter no espírito suas condições de existência una e universal, assim, como de inteligência em ato. Se o Ser fosse objeto de uma intuição concreta como a do sentido ou da introspecção, de uma intuição centrada sobre um real completamente tomado em sua existência particular, a filosofia deveria escolher – conforme afete esta intuição de um índice realista ou idealista – entre um puro monismo ontológico e um puro pluralismo fenomenista. Portanto, o Ser é um análogo” uma similitude em nós.

Assim, como para Heidegger, também para Maritain o Ser cognoscível é sempre diretamente apenas o ente[6], no aspecto epistemológico da metafísica.
Embora exista notoriedade na ciência experimental do saber “perinoético” (movimento do intelecto) que se refere aos fenômenos, quando encontramo-nos, ao contrário, no saber “dianoético” (próprio do intelecto), como o conhecimento do ser enquanto ser, a metafísica é saber imperfeito caso seja tomada como ciência exaustiva, como fizeram os modernos, implicando num imanentismo e agnosticismo, pois a sua miséria é ser “ciência humana” e sua grandeza é ser “sabedoria”.
De acordo com Maritain existe na condição moderna da metafísica, um componente não natural, mas histórico: “ela, e com ela a inteligência foi forçada a interessar-se apenas pelas descoberta de instrumentos para colher os fenômenos, para certo domínio prático[7]. Desse modo, Maritain restaura a sua natureza, que é a de ir além dos fenômenos, além dos conceitos empírico práticos (o Ser “inútil”), para os fins do domínio sobre as coisas, para redescobrir a verdade em si do ser”, e assim instituir valores absolutos e verdadeiros.

Ainda nas “Sete lições sobre o Ser” Maritain faz uma distinção muito esclarecedora, onde trata da ciência enquanto problema e metafísica enquanto mistério; vejamos:

“Seguindo uma terminologia que tomo emprestada do Sr. Gabriel Marcel – mas que aplico para dizer a verdade, de maneira completamente diferente – , digamos que toda questão levantada por uma ciência apresenta um duplo aspecto. O aspecto mistério e o aspecto problema. É um mistério e é um problema; um “mistério” do lado da coisa, do objeto e de sua realidade extramental; “um problema” do lado de nossas fórmulas.
A noção de mistério inteligível não é uma noção contraditória, é a forma mais exata de designar a realidade; o mistério não é inimigo da inteligência; foram Descartes e a razão cartesiana que introduziram esta oposição mentirosa – oposição, porém, inevitável em um sistema idealista, em uma atmosfera idealista. A objetividade da inteligência é, ela própria, soberanamente misteriosa, e o objeto do conhecimento é o “mistério” elevado ao estado de inteligibilidade em ato e de intelecção em ato: ela se torna outro enquanto outro, traz em seu próprio seio, uma realidade inesgotável “transobjetiva”, vitalmente apreendida como objeto. O objeto é o próprio real. Da inteligência, assim como da fé, é preciso dizer que o seu ato não termina na formula, mas na coisa, non terminatur ad enuntiabile, se as rem
[8]. O mistério é seu alimento: o outro que ela assimila.
O seu objeto próprio não é o Ser? E o ser não é um mistério, ora porque é rico demais em inteligibilidade, puro demais para nossa inteligência, como nas coisas espirituais, ora porque comporta em si mesmo uma maior ou menor resistência à inteligibilidade, o testemunho em si do não ser, como é o caso do devir, da potência e, antes de tudo da matéria?
Digamos que “mistério” é uma plenitude ontológica à qual a inteligência se une vitalmente e onde mergulha sem esgota-la (se esgotasse seria Deus, o próprio autor do ser). O tipo de supereminente de “mistério” é o mistério sobrenatural, aquele que é objeto da fé e da teologia. Este refere-se a própria Deidade, à vida íntima de Deus, à qual a nossa razão é incapaz de se elevar apenas por suas forças naturais. Mas a filosofia e a ciência também têm relação com o mistério, com outro mistério, o da natureza e o do Ser. Uma filosofia que não tivesse o sentido de mistério, não seria uma filosofia.
Onde encontrar, por outro lado, o tipo puro daquilo que chamamos “problema”? O “problema” de tipo puro é um “problema” de palavras cruzadas, um enigma, um quebra-cabeça.
Aqui, no limite, neste limite – não há conteúdo ontológico. Uma dificuldade intelectual sem conteúdo ontológico. Uma dificuldade lógica, um nó de conceitos inventado por um espírito e que o outro espírito tenta desfazer. Quando ele desfez este nó e resolveu esta dificuldade, está acabado, não há nada mais a ser apreendido. Porque não havia mais nada a ser sabido além do saber como desfazer o nó. Quando Édipo encontrou a palavra do enigma, só precisou continuar o seu caminho, deixando a Esfinge para trás.
Digamos que o “problema” é um complexo nocional criado por nossa inteligência que inicialmente parece inextrincável e que